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jun 03 2016

NANÃ SE VINGA DE OSÀLÁ.

 

NANÃ SE VINGA DE OSÀLÁ.

“Nanã era considerada como a grande justiceira. Qualquer problema que ocorria em seu reino, os habitantes a procuravam para ser a juíza das causas. No entanto, Nanã era conhecida como aquela que sempre castigava mais os homens, perdoando as mulheres.
Nanã possuía um jardim em seu palácio onde havia um quarto para o eguns, que eram comandados por ela. Se alguma mulher reclamava do marido, Nanã mandava prendê-lo chamando os eguns para assustá-lo, libertando o faltoso em seguida.
Osalá sabedor das atitudes da velha Nanã resolveu visitá-la. Chegou a seu palácio faminto e pediu a Nanã que lhe preparasse um suco com igbins. Osalá muito sabido fez Nanã beber dele, acalmando-a e a cada dia que passava ela gostava mais do velho rei.
Pouco a pouco Nanã foi cedendo aos pedidos do velho, até que um dia levou-o a seu jardim secreto, mostrando-lhe como controlava os eguns. Na ausência de Nanã, Osalá vestiu-se de mulher e foi ter com os eguns, chamando-os exatamente como Nanã fazia, ordenando-lhes que deveriam obedecer a partir dali somente ao homem que vivia na casa da rainha. Em seu retorno Nanã tomou conhecimento do fato ficando zangada com o velho rei.
Foi então que rogou uma praga no velho rei que partir dali nunca mais usaria vestes masculinas. Por isso até hoje Osalá veste-se com saia cumprida e cobre o rosto como as deusas rainhas, e a ele fica extremamente proibido o uso do sal, simbolo da vida no candomblé”

 

Sobre o autor

tomeje

Axé à todos. Sou o Tomeje. Iniciado em 27 de outubro de 1987 para o Orixa Ogun. Desde que conheci a religião dos Orixás eu sempre me preocupei em apreender qual a função da religião e da religiosidade na vida das pessoas. Eu quero entender como isso funciona. Como a religião e a religiosidade formam a fé de alguém. São muito anos de perguntas, muitos questionamentos pessoais e poucas respostas e creio que seguirei assim, aprendendo sempre.
Agora, graças a essa nova tecnologia, tenho uma oportunidade de interagir e trocar experiencias e vivencias dentro da religião e assim aprender uns com os outros. Eu mais que vcs, com certeza, aprendo a cada pergunta.
Eu tento compreender a nossa religião pensando sempre numa comunidade que se ajuda mutuamente. E não é diferente neste meio de comunicação, que assim como os livros, discos, cadernos, fitas, dvd's e outras ferramentas de divulgação de conhecimentos, este blog é somente mais uma forma de comunicação.
Porém este nova possibilidade não deve ser pressuposto para descuidarmos do aprendizado com nossos mais velhos nas roças, no seu dia a dia. Ainda que por vezes seja difícil, eu aprendi que é na roça que se vive a realidade da religião.
Meu trabalho aqui é muito mais do que só falar e responder questionamentos a cerca da religiosidade. Meu objetivo é promover a discussão de assuntos que nos afetam direta ou inderetamente, é lembra-los que somos parte do TODO, que somos uma só comunidade e que o indivíduo, apesar de dos seus anseios pessoais, está inserido numa família de axé e, neste contexto, quanto mais se pensa coletivamente, mais o individuo se fortalece.
Candomblé só se faz no coletivo.
Sejam todos muito bem vindo a este projeto e que nossos queridos Orixas nos encaminhem sempre no melhor destino. Axé, Tomeje.

5 comentários

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  1. Silva

    Olá Tomeje! Sua bença!

    Parece consenso entre alguns pesquisadores renomados a citação “o mito justifica o rito” ou seja, a mitologia norteia os rituais religiosos do candomblé. O senhor concorda? Porém é visível que em certas cerimônias públicas em alguns terreiros considerados mais tradicionais, que não se veste saia em Oxalá no corpo de uma matéria do sexo biológico masculino. Substituem a saia pelo bombacho. Porque isso acontece, ja que supostamente estaria indo ao contrário princípios norteadores dos rituais? Vale ressaltar a estreita relação entre alguns pesquisadores renomados e casas de axé consideradas mais tradicionais. Por gentileza, qual a sua opinião dentro desse assunto?

    Grande Abraço
    Axé

    1. tomeje

      Silva seja bem vindo. Eu compreendo que existe sim uma relação estreita entre Mito e Rito, aceito e faço assim na minha Casa. Porém, devemos pensar que o Mito é verdade absoluta para uma determinada comunidade e essa comunidade deve respeito a um líder, ok? Ai reside um problema sério. Se o líder compreende o mito de uma forma particular ele vai impor ou implantar a sua visão religiosa naquela comunidade. Mesmo falando de Casas tradicionais isso acontece. Por isso, ontem, estávamos conversando sobre isso do certo e do errado no candomblé. O que eu entendo é o seguinte, sou descendente do Oxumare Salvador e se lá o Orixa se veste assim ou assado, eu faço como a minha Matriz determina como certo na nossa raiz. E é assim que o candomblé segue meu irmão. Temos divergencias e similaridades, graças a Olodumare rsrsrsrsrs somos diferentes e pensamos diferente. Esta é a minha visão resumidarsrsrsrsrsr. Asé, Tomeje.

  2. Silva

    Olá Tomeje,

    Muito agradecido pelas boas vindas!

    Entendo que cada casa segue sua tradição de maneira particular, e fazendo jus a sua citação “E é assim que o candomblé segue meu irmão.” Mesmo entre casas antigas, mesmo entre casas com menos anos de existência. Neste sentido vale saber:

    1- Quais seriam os códigos de ética em relação ao que modificar ou não no candomblé a partir das tradições de cada uma casa, independentemente de suas nações? Ou seja, quais os critérios definiria o que seria “mais aceitável” e/ou “menos aceitável?”
    2- Neste sentido se cada líder do candomblé estabelece diferentes dogmas na sua comunidade/casa, o que dá o direito de uma comunidade/casa se considerar mais tradicional do que outra? Se temos convergências e divergências?

    Um grande abraço

    1. tomeje

      Silva, eu sou descendente do Asé Oxumare. Nossa Casa matriz está elaborando um documento com normas de conduta, roupas, liturgias, comportamento e diversos outros temas DO NOSSO INTERESSE. Quando falo do “nosso interesse” não estou querendo dizer que os nossos interesses estejam acima dos demais, porém a ideia é ter um conjunto de normas que SERÃO seguidas por todas as Casas descendentes (e reconhecidas pela matriz) que desejarem ostentar o nome Oxumare. Isso vai fazer, sim, uma certa separação do joio e do trigo, certo? Hoje, sinceramente o que vejo é que há uma clara separação entre Casas tradicionais (independente do tempo de existência) dos becos (casas sem raiz alguma). Basta 10 minutos da sala de certas casas que podemos perceber se a casa tem ou não tem uma raiz clara de definida ou se é um beco. Desculpe não estou sendo petulante ou soberbo. Mas eu me esforço para minha Casa seguir ao máximo o que rege as normas do Oxumare, eu quero ter e ser reconhecido pela minha Matriz. Silva, falta aprendizado de Asé meu irmão(a), falta comprometimento dos sacerdotes com os ensinamentos e com o aprendizado, falta respeito ao asé (força), falta compreender que nós pertencemos ao candomblé, mas o candomblé não nos pertence. Falta muita coisa. Mas temos muitos pontos convergentes, um deles é a vontade de fazer uma boa religião e deixar um um bom candomblé para nossos filhos. Vamos conversar mais? Tomeje.

  3. Silva

    Olá Tomeje,

    Com certeza podemos conversar mais, sim! Então vamos lá!

    Neste caso do mito “Nanã se vinga de Oxalá” o fato de alguns terreiros não vestir saia em Oxalá no corpo de uma matéria do gênero masculino – designado ao nascer (biologicamente) – teria implicações de gênero?
    Entendo que uma pessoa estando em conformidade com o seu gênero atribuído ao nascer é considerada uma pessoa cisgênero. Por exemplo: existem mulheres ou homens cisgênero, ou seja, mulheres e homens que estão em conformidade com o seu gênero designado ao nascer. Tudo bem? Então, se um homem cisgênero carrega uma energia como Oxalá – que apesar de mitologicamente/espiritualmente ser um Orixá Aboró, também carrega implicações mitológicas que o faz carregar energias e indumentárias de Orixá Yabá – o que daria o direito dessa/ desse líder contrariar a mitologia e retirar a saia da indumentária do Orixá dessa matéria rodante? Estaria aí em jogo questões de desconforto em relação a saia? A saia colocaria em questão a masculinidade desse homem cis rodante de Oxalá? O senhor concorda que colocando a saia em Oxalá neste homem rodante cis se está vestindo a divindade e não a matéria? Sabemos que a divindade nos escolhe, e não ao contrário.
    Talvez a nossa discussão, apesar de estar nesta postagem específica “Nanã se vinga de Oxalá” precise torna-se mais específica. Sendo assim, espero agora ser mais específico em relação a nossa discussão sobre o que mudar ou não no nosso candomblé. Concordo com o senhor que muita coisa tem que permanecer no candomblé para se preservar as tradições. Então, para continuar sendo específico em relação as vestimentas, se vê muito em cerimônias públicas em várias casas – consideradas tradicionais ou não, com muito tempo de existência ou não – alguns Ogans vestindo roupas que são do seu dia-dia fora das casas de axé. Como por exemplo, roupas de Hip-hop (nada contra ao movimento Hip-hop). Também algumas Ekedis nas cerimônias públicas trajando vestidos/modelitos de festa.

    Sinto agradecido pela atenção!

    Muita força para nós!

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