Para não acabar na quarta-feira. Jaime Mitropoulos. Procurador da República. Procurador Regional dos Direitos do Cidadão

 

 

Para não acabar na quarta-feira.

Engana-se quem pensa que a marcha civilizatória é um conjunto de fatos espalhados ao léu. Não faz muito tempo li um artigo chamando a atenção para o encolhimento da ala das baianas de nossas escolas de samba, espremidas entre gigantes carros alegóricos e o patrulhamento religioso.

Dias depois noticiou-se que mães de santo e terreiros vinham sendo expulsos de comunidades. Sim, eu li, isso acontece no Rio de Janeiro do século XXI.

Recentemente, o Ministério Público Federal realizou um audiência pública na qual se debateu o papel da sociedade, da mídia e do poder público como guardiões da liberdade de crença (e da não-crença), no contexto de um Estado que, apesar de não ter religião oficial, tem a obrigação de agir para restaurar o equilíbrio quando o sistema de liberdades está em risco ou já foi rompido.

Não custa lembrar que um dos objetivos da nossa República é construir uma sociedade livre, justa e solidária, sem preconceitos de cor, etnia ou de religião.

Dia vinte e um de janeiro comemora-se o Dia Nacional de Luta Contra a Intolerância Religiosa. A data também homenageia Gilda dos Santos, Iyalorixá que, em Salvador, retornou ao Orum após sofrer injusto ataque promovido pela Folha Universal.

No nosso país, quem pratica, induz e incita a discriminação por motivos religiosos também comete crime. Nesse aspecto, o poder público deve coibir, inclusive, a utilização de meios de comunicação para difusão de conteúdos que exponham pessoa ou grupo ao ódio por motivos fundados na religiosidade.

Por outro lado, essa semana aconteceu um belíssimo evento ecumênico, ao qual compareceram diversos representantes de vários segmentos religiosos, inclusive de igrejas cristãs. E lá estavam elas, as baianas, deslizando pela passarela.

Nossas baianas, as verdadeiras mães do samba, hoje já são avós e bisavós desse gênero genuinamente brasileiro e que já espalhou suas sementes por todos os cantos. Para muito além de símbolos de uma festa popular – o que por si só já não é pouco – as baianas sempre representaram a fé no ser humano e a esperança na construção de um caminho mais livre para seu povo passar.

Assim como a vida, o processo civilizatório não é apenas um conjunto de atos aleatórios. É preciso conhecer sua trajetória, feita por uma história de sofrimentos e conquistas. Nesse sentido, ataques disparados contra qualquer segmento religioso ofendem à sociedade como um todo, pois os valores conquistados não pertencem apenas a essa ou aquela religião. Tampouco dizem respeito apenas aos dias de hoje. Trata-se de uma conquista que demandou séculos de perseguição, preconceitos e muitas lutas. Portanto são valores que pertencem também às gerações passadas e às gerações futuras. É preciso colocar a mão na consciência: todos merecemos usufruir dessa conquista, em pé de igualdade. O Rio de Janeiro, nesse sentido, serve de exemplo, para que possamos construir uma sociedade livre, plural, democrática, justa e solidária.

Vida longa para elas, que nos ensinam, com sabedoria e serenidade, que seguir na avenida é muito mais do que rodopiar sem rumo; é sinônimo de evoluir com harmonia, respeitando a pluralidade e a diversidade. Pois é assim que queremos seguir escrevendo essa história, mesmo depois da quarta-feira de cinzas.

Jaime Mitropoulos . Procurador da República. Procurador Regional dos Direitos do Cidadão

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)