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maio 31 2012

IKU E O AXEXÊ:

 

IKU E O AXEXÊ: 

Segundo a Cultura Yorubá, “Quando Odudua estava criando o mundo, encarregou os Orixás de recolherem a lama para moldarem os corpos dos seres, mas toda vez que tentavam pegar a lama, Odudua chorava condoída. Com isso, os Orixás interrompiam a tarefa e nada pegavam. Então Iku apareceu e pegou a lama (eerúpé) sem piedade e a entregou a Olúgama para que esta modelasse os arás (corpos). A partir de então, Iku ficou incumbido de devolver a lama de onde a retirou. Por esta razão é que a morte nos leva de volta à terra.” 

A Iku foi entregue uma ferramenta chamada kumon (kùmòn): um bastão medindo 30 cm com uma cabeça esculpida na ponta superior. É com ele que Iku retira a vida. 

Iku, para os nagôs, é uma Divindade masculina. Veste-se de negro, pois esta é mesma a cor do Odu que lhe dá caminho, Oyeku Meji. Este odu  simboliza o esgotamento da matéria. 

Iku é um guerreiro, e também um dos Irúnmolè do lado esquerdo. É uma divindade que não se fixa em nenhum lugar. Gira em torno do mundo para realizar sua tarefa. 

Iku é considerado por  Olorun  como o Orixá mais fiel, pois é o único que jamais deixa de cumprir integralmente sua missão, percorrendo todo o aiyê sem cansar, procurando todos os seres vivos, sem distinção entre ricos e pobres, novos e velhos, machos e fêmeas, belos ou feios, fortes ou fracos, sábios ou ignorantes. Todos um dia sempre serão encontrados e montados por Iku. 

Para os nagô Iku é o único Orixá que tomará a cabeça de todos os seres humanos. Contudo, Iku trabalha só e apenas usa como critério as ordens de Olodumare. 

Dessa forma, mesmo que alguém deseje a sua própria morte querendo o alívio das dores e sofrimentos; ou ainda queiram provocar Iku para levar alguém de quem não se goste, não terão o direito de invocar morte. O suicídio e o assassinato são interditos de Iku, que não tolera ser importunado pelos homens, sendo obrigado por estes a antecipar sua tarefa. Por isso, os suicidas e assassinos são condenados por Iku a vagarem sem descanso no mundo da escuridão. 

Embora ninguém consiga evitar a vinda de Iku, ele não é invencível. Todos sobrevivem à morte e podem tornar-se imortais na memória dos que o amaram, pelos seus feitos positivos em vida e no ipori de seus descendentes.Embora Iku ceife a vida, só ele pode abrir caminho para uma nova existência. A reencarnação (atunwá) só advem após a morte. E se o fim da vida encerra um ciclo, imediatamente reabre a possibilidade do início de outro, com a vida posterior. 

Ejiogbe (o odu da vida) e Oyeku Meji (o signo do fim da matéria) se contrapõem e se complementam, como tudo na harmonia da natureza plena. 

A reencarnação é fundamental para que sejam alcançados os elementos que um dia poderão tornar aquele Ser Humano um ancestral honrado e importante (um esá): o resgate (gbígbàsílè), o arrependimento (ìrobinúje), o perdão (dákun) e com isso alcançar a salvação (ìgbàlá).” 

Em razão disso, a chegada da morte é um momento extremamente importante na cultura yorubá.

A transição deste ciclo tão arrebatador: a morte e a vida, deve ser cultuada em um dos rituais mais instigantes e complexos do povo nagô: O axexê.” 

O Povo Yorubá tinha vários tipos de funerais. O que se levava em consideração no momento de escolher o ideal, eram as circunstâncias da morte, suas causas, a idade e a condição social do morto junto à Comunidade. 

Os funearais eram chamados de ÌSÌNKÚ (enterro), e não tinham como objetivo simplesmente sepultar o corpo, mas conduzir o espírito do falecido até o reino dos espíritos onde estão os outros ancestrais da família. 

Pode-se dizer que o Ìsìnkú (enterro) era uma celebração que durava até 7 dias de cânticos, danças, rituais fúnebres e banquetes. 

Era tão grande a importância dos funerais suntuosos, que os yorubás tinham por tradição até contraírem dívidas para os festejos, quando era necessário. Se a família fosse pobre, muitas vezes pagavam os credores com trabalho, dando a si mesmos ou aos parentes como escravos, até a quitação da dívida. 

Os rituais fúnebres consistiam basicamente em 9 procedimentos: 

1º) assim que morria a pessoa, o corpo era envolvido imediatamente numa mortalha branca; 

2º) o corpo era banhado com água morna, sabão e esponja. Quem jogava primeiro a água, era o filho mais velho do falecido; Se fosse mulher, o cabelo era penteado; e se fosse homem, algumas vezes era raspado. 

Eles acreditavam que se o corpo não fosse levado na cerimônia de partida, o morto não tomaria lugar junto aos ancestrais e se tornaria um fantasma errante, que eles chamavam de isekú (fantasma ou assombração de pessoa cuja tarefa está inacabada); 

3º) um embalsamador preparava o corpo e eram então realizados os primeiros sacrifícios e oferendas aos pés do morto. Esse gesto, objetivava fortalecer o espírito. 

Todas essas, eram formas dele não sentir fome durante a jornada à terra dos ancestrais; 

4º) era então preparado um banho de ervas (agbô) que serviria para banhar o corpo;

5º) o filho mais velho do morto, então esfregava efún e osún nas palmas das mãos do defunto, dizendo: “iké funlowó fún mi” (você põe efun nas minhas mãos). Isto significa que o filho que foi alimentado, agora nutria seu pai no torno ao orún. Ou seja: o pai trouxe ao mundo uma criança, então esse filho deve ajudá-lo na passagem de volta. 

6º) o sexto passo, era vestir o corpo com belas roupas e pousá-lo em casa onde ficaria exposto. Era tradição que amigos e parentes enfeitassem a cama onde o morto ficava com ricos panos coloridos, como forma de reverenciar o morto. As estampas coloridas significavam as experiências adquiridas pelo morto ao longo da vida e serviam também para torná-los mais interessados na viagem de retorno. Começavam, a partir daí os cânticos, as danças e a distribuição de comida. 

7º) dias após todo esse procedimento, o corpo era envolvido em uma esteira especial (êni fafá) sendo carregado em procissão solene até a sepultura onde seria pousado cuidadosamente no caixão com todas as suas partes bem acomodadas. Eram depositados junto ao morto, pedaços de prata, dinheiro, roupas, etc. 

8º) ao anoitecer, quando o calor diminuía, começavam então os preparativos no caixão, onde depositavam as últimas oferendas pelos parentes maternos e paternos.

9º) finalmente após a tampa do caixão ser fechada, o filho mais velho do morto toca o corpo do falecido com um cajado de latão por 3 vezes, despachando assim sua alma. Então o caixão baixava à sepultura completando o enterro do corpo. 

As sepulturas eram feitas em um quarto particular dentro de casa. Com o tempo, a tradição mudou e passaram a fazer os sepultamentos nos quintais. 

Para os yorubás, enterrar um parente em um cemitério comum seria como jogá-lo fora e perder o contato com ele. 

No Brasil o rito do axexê foi redesenhado. 

Rio, 20/4/11

Márcio de Jagun

 

Sobre o autor

tomeje

Axé à todos. Sou o Tomeje. Iniciado em 27 de outubro de 1987 para o Orixa Ogun. Desde que conheci a religião dos Orixás eu sempre me preocupei em apreender qual a função da religião e da religiosidade na vida das pessoas. Eu quero entender como isso funciona. Como a religião e a religiosidade formam a fé de alguém. São muito anos de perguntas, muitos questionamentos pessoais e poucas respostas e creio que seguirei assim, aprendendo sempre.
Agora, graças a essa nova tecnologia, tenho uma oportunidade de interagir e trocar experiencias e vivencias dentro da religião e assim aprender uns com os outros. Eu mais que vcs, com certeza, aprendo a cada pergunta.
Eu tento compreender a nossa religião pensando sempre numa comunidade que se ajuda mutuamente. E não é diferente neste meio de comunicação, que assim como os livros, discos, cadernos, fitas, dvd's e outras ferramentas de divulgação de conhecimentos, este blog é somente mais uma forma de comunicação.
Porém este nova possibilidade não deve ser pressuposto para descuidarmos do aprendizado com nossos mais velhos nas roças, no seu dia a dia. Ainda que por vezes seja difícil, eu aprendi que é na roça que se vive a realidade da religião.
Meu trabalho aqui é muito mais do que só falar e responder questionamentos a cerca da religiosidade. Meu objetivo é promover a discussão de assuntos que nos afetam direta ou inderetamente, é lembra-los que somos parte do TODO, que somos uma só comunidade e que o indivíduo, apesar de dos seus anseios pessoais, está inserido numa família de axé e, neste contexto, quanto mais se pensa coletivamente, mais o individuo se fortalece.
Candomblé só se faz no coletivo.
Sejam todos muito bem vindo a este projeto e que nossos queridos Orixas nos encaminhem sempre no melhor destino. Axé, Tomeje.

11 comentários

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  1. Soraya

    Por gentileza pode explicar em que momento chega as iansa e logo depois de pagar a vida? Ou depois de cantar para varias nações? Obrigada

    1. Soraya

      Por gentileza quando chega iansa depois que se paga a vida ou depois de varias cantigas das nações? Obrigada

      1. tomeje

        Soraya bom dia e seja bem vinda ao blog. Não há um momento específico durante o Axexê quando este orixa deve se manifestar em suas filhas, mas com toda certeza será no momento mais apropriado para cada filha da Casa de Axé. Em muitas Casas algumas filhas do orixa Oyá/Yansã não entrarão em transe devido ao pouco tempo de iniciação ou por algum outro motivo específico. Portanto não há regras rígidas sobre isso. Mas em geral só as mais velhas e mais experientes entarão em transe sim. Lembre-se que esta é uma cerimonia complexa e requer muita cautela e concentração de todos os presentes, portanto, uma manifestação de Orixa que não esteja familiarizado com este orô pode de certa forma tirar a atenção da cerimônia. Em outras palavras, esta manifestação pode atrapalhar mais que ajudar. Não se trata de preconceito ou privilégios ou de renegar os orixas dos mais novos, não é isso. Mas nossa religião é feita principalmente de observação, e eu creio que seja fundamental aos mais novos observarem aquilo que se faz durante um orô desta importancia, e principalmente como se comportar durante estes momentos. Não podemos esquecer que, infelismente, muitos filhos de orixa acham que “manifestando” Orixa em ocasiões com esta estarão de certa forma se inserindo na cerimonia de forma mais destacada e com participação especial; Quando na realidade o momento é de contrição e recolhimento da comunidade e os Orixas que participam cumprem um papel bem específico, principalmente o do acolhimento e conforto dos filhos da Casa, nada mais que isso.
        Não compreendi a que vc quer dizer “depois que se paga a vida”, o que é isso?
        Sobre cantar para diversas “nações” é outro assunto controvérso, polêmico. O Axexê é sempre uma cerimonia íntima de uma Casa de Axé, portanto os participantes serão todos daqueles Axé e as cantigas serão daquele Axé e “nação”. Porém é comun que pessoas graduadas de outros Axés e “nações” visitem a Casa,e neste momento, por questão de educação, podem haver cantigas para saudar este visitante ilustre, mas estas cantigas não são parte daquele Axexê, são agrados ao visitante. Quando o falecido pertenceu a outras “nações”, pode-se então cantar algumas cantigas desta outra “nação”, mas também como agradecimento e recordação daquele tempo. Mas o Axexê segue o padrão da Casa e da “nação” do falecido, não há motivos para cantar para as “diversas nações”. Axé, espero ter ajudado, Tomeje.

  2. ricardo fuad

    Mutumba,

    Sou iniciado de orisa com meus 3 anos de santo tomado.
    Porem casado com uma mulher evangelica,
    ela nao interfere na minha vida religiosa.

    Porem ao morrer, deveria ser feito o AXEXE.
    E ela nao autorizaria devido os valores religiosos dela.

    O que pode acontecer comigo em pos morte? e
    E com os meus filhos ?

    1. tomeje

      Ricardo seja bem vindo. Há coisas que estão sob nosso controle e outras não. O que será feito com seu corpo depois da sua jornada é uma questão eu vc não terá controle. Viva sua religiosidade com intensidade, seja feliz, mostre que sua religião é linda, ame seus Orixás e viva em paz com esta questão de axexê. Falando claramente, o problema é da sua esposa caso ela não permita que vc receba o axexê em seu corpo pós morte. Mas seu Pai ou sua Mãe sabem como proceder caso isso se concretize. Pense em quantas pessoas de Orixa morrem e não tem o corpo encontrado, e mesmo assim podemos realizar cerimonias em sua homenagem. Quanto aos seus filhos, nada de mais vai acontecer a eles, não podemos inferir culpa naqueles que não tem culpa por atos de terceiros. Fique feliz meus irmão e viva em paz. Axé, Tomeje.

  3. Marcus Fusco

    Eu queria saber como faz despachar os assentamento por causa da idade e não poder mais trabalhar

    1. tomeje

      Marcus, bem-vindo. Existe uma série de preceitos que devem ser observados na hora de se desfazer desses objetos, afinal, eles foram consagrados, tiveram o nosso carinho e agora merecem o mesmo respeito para serem despachados. Em geral, se despacha no mar, em águas profundas ou num rio de águas também profundas, o ideal é que alguém de sua confiança faça um jogo para ver as oferendas propiciatórias que acompanharão esses assentamentos. Não é nada complexo e nem demorado, na verdade, é muito mais uma questão de carinho e respeito. Espero ter ajudado. Axé, Tomeje.

  4. marya sylva

    e muito bom saber que existe pessoas como voce disposto a ajudar nos a entender e aceitar os fatos a algum tempo atras eu nao aceitava nao min comformava mas hoje eu aceito porque sei que nao acabou ao contrario e um recomeco uma nova vida um novo ciclo da vida uma nova vida espiritual elevacao do espirito nao acaba aqui comeca em um outro plano muito obrigada por ser essa pessoa tao maravilhosa axe

    1. tomeje

      Marya Sylva. obrigado pela visita, ficamos felizes em ajudar os irmãos de axé. Tomeje.

  5. Françoise Godoi

    Boa tarde meu Tateto fez passagem à dois dias e estava tudo preparado para o início do axexe no velório quando um de seus filhos carnais não permitiu o ato , então minha pergunta é seria válido fazer o axexe sem ter feito o ato do rungebe no velório ?Se eu estou com medo sim desesperada sou ebome da casa do meu falecido pai mais não tenho entendimento o suficiente sobre o assunto ,pois uma pessoa me aterrorizou com esta questão me dizendo que nos filhos nascidos por ele estamos encrencados , então preciso de uma palavra de socorro tem como tirar essa irá !!?? obrigada

    1. tomeje

      Françoise Goddoi seja bem vinda ao blog. É estranho que uma religião tão bela como a nossa, comporte pessoa de índole tão pequena que gostam de ficar falando besteiras e aterrorizando os outros, não acha? Será que já é o suficiente para esta pessoa ver a dor que vcs estão passando pela morte do sacerdote????? Tem ainda que ficar inventando regras e mentiras????? Que prazer sádico tem essas pessoas!!!! Querida, isso que foi dito é mentira, não há problema algum em ter feito uma cerimonia. Em geral isso acontece quando o parente não compartilha da mesma religião que o falecido, deve ser este o motivo, certo? Mas vcs, filhos não tem nada com isso e não tem consequencia alguma pra vcs, fique tranquila. O meu conselho que vc não permita que esta pessoa que falou isso venha a lavar sua cabeça ou tirar a mão do falecido. Ok????? Em geral quem inenta estas besteiras logo depois vem com esta historinha de que vc tem lavar cabeça com urgencia, tem que fazer ebó etc etc. Fique esperta. Asé e felicidades, Baba Tomeje

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