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maio 06 2013

Transexualidade e Cargo de Santo

 

Transexualidade e Cargo de Santo 


            Assunto em voga atualmente, a transexualidade tem sido discutida e veiculada na mídia sob diversas abordagens. Recentemente, foi ao ar em canal aberto de grande visibilidade, uma reportagem sobre uma criança nos EUA que desde muito cedo não aceitava seu sexo de nascimento e dizia aos pais que estava no corpo errado. Diante da afirmação insistente do “menino”, que tinha um irmão gêmeo, os pais resolveram buscar orientação de profissionais da área de saúde. Ficou constatado que era um transexual MtF (do inglês, Male-to-Female, masculino para feminino). A criança passou  a ser tratada como sendo do Gênero feminino, e toda a família passou a ser assistida por um grupo de profissionais para lidar com a situação em sociedade.

            Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) transexualidade é a condição considerada como um tipo de transtorno de identidade de gênero. Homens e mulheres transexuais experimentam uma sensação de desconforto com seu sexo anatômico, passando a adotar socialmente o gênero almejado. Existe uma corrente científica que defende à tese de que o sexo é definido previamente no cérebro, uma vez que o sistema neurológico é o primeiro a ser formado em nosso corpo, e posteriormente, é formado o sexo anatômico. O que acontece no caso dos transexuais é uma discrepância entre a formação neurológica do sexo do indivíduo e a formação anatômica. Ou seja, “é a cabeça de uma mulher presa no corpo de um homem” e vice-versa.

            O Candomblé é religião que naturalmente acolhe minorias e procura aceitar o indivíduo tal como ele se apresenta, sem a necessidade de “conversão” a determinados juízos de valor ou “ajustamentos sociais” (desde que não agridam a sociedade ou infrinjam a lei, claro!). É, também, uma religião com hierarquia e códigos muito particulares. O egbé (comunidade) do Candomblé tem para cada adepto o seu lugar próprio, ninguém fica aleatório dentro desse amálgama humano. Homens e mulheres tem funções muito bem definidas, pontuadas, não sendo permitido que determinadas funções estabelecidas para homens sejam exercidas por mulheres e vice-versa. Por exemplo: o cargo de ogan, é para homens e o cargo de ekédis para mulheres. Mas, e o transexual no Candomblé? Se ele(a) tiver cargo de santo? Aproveitando o exemplo dado anteriormente de ogan e ekédi, se uma mulher transexual tiver tal cargo? Será ogan ou ekédi? Seu sexo de nascimento é masculino, mas sua identidade (gênero) feminino. O que fazer? Partindo da premissa de que o Candomblé aceita a pessoa com seus sonhos, idiossincrasias, particularidades, neuroses, enfim, na condição que se apresenta, a meu ver, uma mulher transexual deverá ser ekédi. Uma vez que ela se vê desconfortável com seu sexo de nascimento e não se aceita em tal condição. Por que nós (que prezamos o princípio da individuação criado por Jung) iríamos agredí-la com um cargo de santo para homens? Nossos Orixás não tem sexo e compreendem mais do que qualquer ser humano as nossas necessidades. Um cargo de ogan ou ekédi, antes de mais nada, é dado por um Orixá. Creio que essa energia linda que são os Orixás, jamais iriam agredir um indivíduo em um momento tão bonito e importante que é a concessão de um cargo. Os próprios pais da criança citada no início foram em auxílio das necessidades de sua filha, por mais que a situação tivesse lhes causado estranheza. Dentro da sua condição humana de pais, tiveram uma atitude divina, digna. Somos filhos de Orixás, se seres humanos puderam ter uma atitude tão sublime, quanto mais nossos Pais e Mães espirituais!    

                                                                                 Axé,          Claudia de Yemojá

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o autor

tomeje

Axé à todos. Sou o Tomeje. Iniciado em 27 de outubro de 1987 para o Orixa Ogun. Desde que conheci a religião dos Orixás eu sempre me preocupei em apreender qual a função da religião e da religiosidade na vida das pessoas. Eu quero entender como isso funciona. Como a religião e a religiosidade formam a fé de alguém. São muito anos de perguntas, muitos questionamentos pessoais e poucas respostas e creio que seguirei assim, aprendendo sempre.
Agora, graças a essa nova tecnologia, tenho uma oportunidade de interagir e trocar experiencias e vivencias dentro da religião e assim aprender uns com os outros. Eu mais que vcs, com certeza, aprendo a cada pergunta.
Eu tento compreender a nossa religião pensando sempre numa comunidade que se ajuda mutuamente. E não é diferente neste meio de comunicação, que assim como os livros, discos, cadernos, fitas, dvd's e outras ferramentas de divulgação de conhecimentos, este blog é somente mais uma forma de comunicação.
Porém este nova possibilidade não deve ser pressuposto para descuidarmos do aprendizado com nossos mais velhos nas roças, no seu dia a dia. Ainda que por vezes seja difícil, eu aprendi que é na roça que se vive a realidade da religião.
Meu trabalho aqui é muito mais do que só falar e responder questionamentos a cerca da religiosidade. Meu objetivo é promover a discussão de assuntos que nos afetam direta ou inderetamente, é lembra-los que somos parte do TODO, que somos uma só comunidade e que o indivíduo, apesar de dos seus anseios pessoais, está inserido numa família de axé e, neste contexto, quanto mais se pensa coletivamente, mais o individuo se fortalece.
Candomblé só se faz no coletivo.
Sejam todos muito bem vindo a este projeto e que nossos queridos Orixas nos encaminhem sempre no melhor destino. Axé, Tomeje.

19 comentários

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  1. MÁRCIO DE JAGUN

    Claudinha,
    A questão realmente é delicada… Por um lado, temos o desafio religioso de respeitarmos a individualidade dos irmãos, tratando-os com caridade e sem preconceito; por outro, temos princípios igualmente religiosos da matriz africana, que nos levam a considerar a energia originária para a concessão e ocupação de cargos…
    Realmente me questiono qual é a energia preponderante de um transexual, se a do seu sexo biológico, ou psicológico.
    Ainda não tenho opinião fechada sobre isso. insisto que nossa Religião deve aprofundar os debates sobre o assunto. Inclusive, reitero que o programa Ori abrirá espaço para promover esta discussão em alto nível.
    Só para colocar lenha na fogueira, lembro que o cargo de iyawo (noiva, noviça iniciada para o Orixá), era um cargo exclusivamente feminino na África e hoje pode ser ocupado por homens…
    Abraço.

  2. Laylah El Ishtar

    Ótimo texto Cláudia !!!
    Fico feliz com suas considerações Márcio!
    Tomeje virei sua fã.

    Laylah

    1. tomeje

      Laylah seja bem vinda.Nós ficamos sinceramente muito felizes como debate e achamos que ele deve ser público, que as Casas de Axé precisam discutir o tema e achar suas próprias soluções para ele. Mas o que não podemos é ficar calados. Estamos a sua disposição para publicação de textos pertinentes ao tema, esteja a vontade. Grande axé, Tomeje.

      1. Laylah El Ishtar

        Sim o assunto merece atenção e fico feliz por vcs se preocuparem.
        Existe uma carência de informações sobre transexualidade e acredito que seja isso que resistência em alguns.
        Infelizmente algumas pessoas transexuais que eram adeptas da Umbanda e do Candomblé abstraíram a religião de suas vidas pelo fato de alguns sacerdotes determinarem como errado e ponto final, um assunto que ainda nem é tão esclarecido até mesmo pela ciência.
        Cresci acreditando que Orixás são forças benéficas que querem o melhor para seu seguidores e não fazem acepção de pessoas,Orixás não escolhem raça, rico, pobre,sexualidade,nacionalidade, sábio,etc.
        E ainda acredito!
        Luz na mente e Paz na Alma de todos nós !!!

  3. Alva Célia

    Márcio de Jagun

    Estive lendo o artigo que você escreveu. É muito rico. Retrata a mais pura realidade
    que vivemos no axé. Parabéns.

    1. tomeje

      Alva o Pai Marcio está em viagem e bastante atarefado no momento, ms em breve ele virá ao blog para te responder pessoalmente. Grato pela visita, axé, Tomeje.

  4. Gilberto Almeida

    Concordo totalmente com o que foi dito pelo texto! Axé!

  5. sthefany

    bom… não entendo porque um assunto tão atual.. e que realmente existe, para no meio de um debate… me perco as vezes por não conseguir chegar a conclusão alguma. dificil saber onde os transexuais se encaixam… sei que não existe regra… mas também, não existe esclarecimento sobre o assunto. dificil ter uma vida social feminia, e religiosa uma vida masculina e vice versa… seria contra sua essencia . sua energia.. seu eu. não tem como viver uma religião que não faz bem . (crer que sejam errados) … não vejo que o transexual simplesmente decidiu entrar na religião ou obter um cargo por simpes fato de querer… sim creio, ser encaminhado a um destino pre determinado… enfim… conheço muitas que se perdem por não se encontrarem . axe a todos

  6. Sthefany, bem-vinda. Realmente, este é um assunto tão atual, porém, pouco discutido dentro das Casas de Axé. Precisamos buscar cada dia mais nos informarmos e debatermos essa questão. Axé! Cátia.

  7. Tyler Dantas

    Sou transexual, abian… É bastante delicada a convivência e fundamentos em determinados momentos. Seria realmente muito bom, se os iles ase discutissem mais sobre…

    1. tomeje

      Tyler, seja bem-vinda. De fato, é uma questão complexa, pois o Candomblé foi organizado tendo como valores a referência masculino x feminino num momento histórico em que não havia transexual, porém, já havia o homossexual, que sempre foi aceito e respeitado pelas Casas. Pensando desta forma, creio que o Candomblé precisa rever os seus valores, não os seus dogmas, e aceitar que o mundo à sua volta mudou, parar de pensar que é uma ilha e se abrir para as questões mais modernas. Se você não estiver sendo feliz na Casa que frequenta ou estiver sendo discriminado, sinceramente, não deixe as coisas chegarem a um ponto sem retorno, conversa com o responsável e busque ajuda para resolver isso. Axé, Tomeje.

  8. Fernando D'Osogiyan

    Cláudia,

    Parabéns pelo texto, penso exatamente como você . Em minha Casa cuido de pessoas de todas as opções sexuais, inclusive, transexuais que, na minha visão, e sem preconceito algum, participam ativamente dentro da hierarquia e cargos dentro de uma casa de candomblé.
    Vale ressaltar, que no culto a Nanã em algumas cidades na Nigéria, homens para participar tem que usar roupas femininas em submissão e respeito ao poder feminino, inclusive não há preconceito quanto aos homossexuais. Em Oyó no culto a Xangô, o elegun de Xangô é homem e independe de sua opção sexual.

    Adupé, Mo juba.

    Fernando D’Osogiyan

    1. tomeje

      Muito obrigado meu irmão, pelo carinho e pela sabedoria. Axé, Tomeje.

  9. Laylah

    Acho q o assunto não evoluiu muito,não vejo movimentação por parte do Candomblé em dissolver esse assunto.
    O assunto é atual,mas transgêneros sempre existiram,talvez não tenham tido visibilidade por conta de repressões sociais e religiosas patriarcais.
    Sempre procuro na internet textos sobre identidade de gênero e Candomblé e não encontro,sempre paro aqui,rsrs
    Sim,muit@s se perdem por não se encontrarem,se no universo religioso o tema não avança,entre pessoas transgêneras o assunto se organiza e fortalece,dificilmente veremos adept@s do Candomblé trans*,de um lado pq os sacerdotes não se abrem ,do outro pq pessoas transgêneras dificilmente aceitarão ter q usar vestes ritualísticas e ter comportamentos divergentes ao gênero com o qual se entendem.
    Tenho pesquisado mesmo,vi mais flexibilidade na Umbanda,apesar de algumas superstições sobre gêneros de médiuns e entidades(o Exú incorporado em uma mulher que não aceita suas vestes ou acessórios femininos,por exemplo).No culto a Ifá se a homossexualidade já é tabu,imagina a transgeneralidade!?
    Sempre acreditei na inclusão dentro das religiões afro,hj já não tenho tanta certeza,me parece q a organização não aconteceu por gêneros(homem x mulher),mas em heranças judaico-cristã,patriarcais que limitam o ser humano em gêneros,ma maioria das vezes sobrepondo o masculino.Aliás sempre tenho essa duvida:Até onde essa herança judaico-cristã e patriarcal influência o Candomblé?
    Enfim,espero por dias melhores,onde gênero e identidade de gênero não dividam pessoas,não afastem pessoas de Olorum!
    Bjs Márcio e Tomeje.

    1. tomeje

      Querida Laylah, tenho absoluta certeza que se ficarmos esperando, o Candomblé nunca vai se abrir para este assunto, existem regras, normas e ritos que são, realmente, incompatíveis com o tema, porém, a discussão deve passar muito acima de normas, regras e ritos, ou de incompatibilidades, deve privilegiar a pessoa. Por outro lado, a religião também não pode sofrer alterações que a descaracterize. É uma discussão longa e que eu acho que tem que ser imposta à religião. Se ficarmos esperando a boa vontade, nunca vai acontecer. Estamos dispostos a publicar mais textos seus e levar esse assunto à nossa comunidade religiosa. Realmente não tivemos um debate, mas tivemos muitos acessos ao texto, e isso é importante. Axé, o convite está feito. Tomeje.

  10. Laylah El Ishtar

    Bom dia Tomeje!
    Desculpe-me a demora em responder,ando com a vida corrida.
    Minha preocupação é que muitas vezes a religião é a única coisa que resta na vida de uma pessoa trans,já que são excluídas do convívio social,profissional e familiar.
    Ñ acredito que seja preciso uma “guerra” pra mudar o alicerce do Candomblé,sim a conscientização das pessoas sobre a transgêneridade,posso afirmar de dentro da situação que muitas vezes algumas pessoas se apegam á esse alicerce pra marcar ar conceitos pessoais.Fico triste q o assunto ainda ñ dissolvido e fico feliz por ver algumas pessoas se abrindo e interessadas.
    Se houver algum debate conte comigo!
    Obrigada!

    1. tomeje

      Laylah, eu continuo esperando seus textos rsrsrsrs Também continuo achando que o caminho é botar o pé na porta e discutir o tema de frente, sem medos e sem pudores. Vamos escrever mais e falar mais? Estamos a sua espera. Asé, Tomeje

  11. Reginaldo Mourão

    Boa noite

    Frequento um centro de Umbandonble na cidade de Caldas Novas onde tenho uma Mãe de Santo transexual e todos os filhos da casa à chamam de mãe, Eu mesmo sou homossexual e incorporo Pomba Gira porque duzem que o homem heterossexual não pode incorporar uma entidade feminina nas os homossexuais podem. Tenho muitas perguntas sem respostas sobre esse assunto. Obrigado

    1. tomeje

      Reginaldo seja bem vindo ao blog. Este tema é super interessante e suscita discussões que envolvem o social, o espiritual e os dogmas da religião. Penso que sua Yá é uma guerreira. Parabéns. Sobre o seu assunto em especial. Não existe isso de que só os homossexuais podem incorporar entidades femininas. Poderia listar aqui uma série de heterosexuais que incorporam entidades ou orixa femininos sem problema algum. mande suas dúvidas e até sugestão de temas para textos, serão bem vindas. Asé e felicidade, Baba Tomeje.

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