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nov 23 2011

A ENTREGA DO DEKÁ

 

A ENTREGA DO DEKÁ – ODÚ IGÊ – IMPORTANTES CONCEITOS DE ÉTICA, MORAL E RESPONSABILIDADES 

A entrega do deká, é o ápice da iniciação no Candomblé. Após os sete anos de iniciação, o até então Iaô deverá fazer sua obrigação correspondente e, se tiver em seu destino a função de abrir uma nova Casa, receberá então seu deká (na Nação Ketu, constituindo-se de uma bandeja com os atinentes elementos) ou sua Cuia (na Nação Jeje, sendo a própria cabaça – Àkérègbè, cortada acima do meio em forma de vasilha com tampa, transformando-se em igbaxé, para colocar-se os símbolos). 

Apesar desta diferenciação étnica, face ao acentuado sincretismo e integração entres as diversas Nações, tal nomenclatura e procedimentos não são tão rígidos, observando-se diversificação em várias Casas. 

Com a obrigação de sete anos (odú igê), o Iaô  passa à categoria de ebômi, ou vodunsi. 

O recebimento da cuia, habilita o portador a abrir seu próprio Candomblé, embora não obrigue o novo ebômi a abandonar seu atual Barracão. 

A cuia, portanto, contém os elementos simbólicos e necessários à abertura de um novo Candomblé, tais como uma tesoura, uma navalha, búzios, contas, folhas, uma faca, um ekodidé, etc. 

A entrega do deká e/ou a exclusiva obrigação de sete anos, são muito esperados pelos filhos-de-Santo, posto que garantem grande elevação na hierarquia do Candomblé. Contudo, devemos ressaltar a importância e as responsabilidades que este passo requer. 

Entre os vários deveres intrínsecos, destaca-se a tarefa de zelar pelo Culto, pela Religião, mantendo seus conceitos, preceitos, e corrigindo deformidades que denigrem o Candomblé.

Ao contrário do que muitos supõem, o Candomblé não é uma religião aética ou amoral. Desde os mais remotos tempos na África, já consideravam-se importantes conceitos de moral, ética, tabus (ewós – interdições) e até uma espécie de mandamentos yorubanos. 

Segundo a tradição yorubá, a origem dos deveres morais provém da Divindade Suprema (Olorum ou Olodumare). Olodumare colocou nos Homens o Ifá Àyà (O Oráculo do Coração ou Oráculo Interior), o que seria sua orientação ética e moral inatas. Uma pessoa seria boa ou má conforme ela corresponde ou desobedece ao seu Oráculo Interior, à sua consciência. 

A busca pela boa conduta seguindo à consciência e às leis superiores, confere ao Candomblé seu “status” de religião, a medida que liga o Homem a Deus (“religare”), proporcionando a melhora do indivíduo. 

A concepção de OMOLÚWABI (“filho do bom caráter”), expressa o princípio yorubano de que o cidadão deve respeitar aos mais velhos, ter lealdade para com os pais e para com a tradição, honestidade, hospitalidade, coragem, devoção, paciência, verdade, assistência aos necessitados e desejo irresistível ao trabalho, a fim de manter ilibado seu nome e o de sua família (entenda-se inclusive a de Santo). 

O mais importante valor do povo Yoruba é o caráter, que é o maior atributo do homem. A palavra iwà vem do verbo wà – Existir, Ser. Odùnrin náa ní ìwà, Aquele homem tem um bom caráter. O indivíduo qué ìwà pèlé não entra em choque com nenhuma força humana e supernatural, vive em plena harmonia com todas as forças do universo. E este fato tem um forte peso no julgamento divino e define o bem estar na terra e o nosso lugar futuro após a nossa morte ou renascimento. Olódùmaré o Deus supremo e conhecido como Olúmònokàn, “aquele que conhece todos os corações”, que tudo sabe e tudo vê, e o seu julgamento é correto e absoluto.

Ìwà nikàn l’ ó sòro o

“Caráter é tudo o que é necessário.”

Eni l’ orí rere tí kò n’ iwà, ìwà l’ o máa b’ orí rè jé.

“Uma pessoa de bom orí, que não tenha caráter, irá arruinar o seu destino.” 

Havia também entre os povos Bantos, um conjunto de normas que proibia, entre outras coisas, provocar o aborto, injuriar, cometer adultério, praticar incesto, tudo visando resguardar a moralidade da família. 

Alguns provérbios bem revelam isto: 

Ebí jàre òle – O homem indolente é o único responsável por sua fome. 

Ìsé kó gbékún – Choro não é resposta para pobreza. 

Àìfágbá féníkan, kò jé ayé é ó gún – Faltar com respeito à autoridade é a origem dos conflitos do mundo. 

Ìwà nikàn l’ó sòro o – O caráter é tudo o que é necessário. 

Reza a tradição que Olofin, chamou a todos os homens ao pé de uma montanha para ensinar-lhes as leis, já que não as conheciam. Chamou pobres e ricos, grandes e pequenos, mulheres e homens, alertando-os se quisessem compartilhar com eles suas aldeias que tinha no céu. E deu-lhes seus MANDAMENTOS: 

“Não roubarás nada dos outros 

Não matarás a quem não tenha lhe causado dano, nem os animais que não precises para teu sustento 

Não comerá a carne do ser humano 

Viverás em paz com teus irmãos 

Não desejarás nada de seus amigos, nem mulher; o que desejares deverás obter de teu esforço 

Não amaldiçoarás o meu nome. Respeitarás pai e mãe. Não pedirás mais do que posso dar-te e te conformarás com teu destino no mundo. 

Não temerás a morte, nem tampouco a buscarás por tuas próprias mãos. Transmitirás meu mandamento a teus filhos e filhos de teus filhos.

E por último, que minhas leis sejam respeitadas, se não o fizeres conhecerás meu castigo.” 

O filho-de-santo, então deve ser orientado, desde sua tenra iniciação, a respeitar estes conceitos, a fim de manter a honra de seu nome e evitar que algo o desabone, bem assim o de seu egbé (sociedade). 

Para bem utilizar o deká, é fundamental ser um omolúwabi. 

 A transmissão destes conceitos, se dá através da tradição oral, dos provérbios, orikis, itãns, canções e, principalmente, por via da aplicação prática. 

Não basta possuir o título de ebômi para merecer respeito. É necessário angariar respeito pelos seus gestos e atos. Ao contrário,  o respeito será apenas formalidade hierárquica. 

É uma falha do zelador não reconhecer a conexão entre a moralidade e a religião. Isto o leva a entender que tudo se resolve através de ebós. No entanto, grande parte das vezes, o consulente está descumprindo normas religiosas, tais como aquelas acima elencadas, e assim desagradando aos Orixás. Nestes casos, antes de qualquer coisa, deverá corrigir sua conduta para, posteriormente, avaliar-se o cabimento de algum ebó de apaziguamento.  

Fundamental também, é entender que apesar de alguém sofrer injustiças, não deve fazer justiça com as próprias mãos.  

Fí ìjà fún Olórun já fí owó l’éran – Entregue nas mãos de Olorun para que ele o defenda.

O mal não se combate com o mal. Ao contrário do que se pensa e do que muitos praticam, não se deve pedir a nenhuma Divindade vingança. Nem mesmo agradar Exú para que este faça mal a terceiros. 

Exú é o guardião, é o instrumento do equilíbrio da justiça. É o princípio da comunicação, da ordem, do equilíbrio e da harmonia universal. Aí também a energia criadora de Exú. De tempos em tempos, compete a Exú inspecionar o trabalho das pessoas e Divindades, relatando a Olodumare. A Exú cabe aplicar o que couber aos transgressores. Contrariar a isto, será subverter-se à ordem desperdiçando axé e comprometendo-se a si próprio, posto que um erro não justifica outros. 

 Alertamos no sentido de que todos os envolvidos em trabalhos maléficos (inclusive os de vingança), estarão sujeitos a pagar pelo mal, tanto os que requisitam, quanto os que executam. 

Nestes casos, deve-se consultar o jôgo de búzios e verificar o que é mais recomendável, se trabalhos de proteção, afastamento, oferendas, fortalecimento, etc., jamais realizar ebós para o mal. 

O guardião da moral do Candomblé, é Oxalá. Seu próprio nome primordial assim o define: Obàtálá – O Rei cuja roupa é branca, ou o Rei que possui honra. A ética e a moral, infelizmente tão esquecidas no Candomblé, são zeladas na brancura de Oxalá e podem ser assim resumidas: 

O caráter (ìwà), é o maior dos valores morais e o maior atributo do Homem. Quem tem bom caráter não colide com nenhuma força humana ou sobrenatural, vivendo em perfeita harmonia com o mundo. 

A bondade (oore), considerada uma grande virtude, sobretudo quando gera hospitalidade e generosidade. Para o povo yorubá, fazer o bem é a grande realização diária. 

A paciência (sùúrú), é entendida como o fator primordial para evitar precipitações que decorram na perca de caráter. A paciência é o primeiro filho de Olodumare e o pai do caráter. 

A promessa (Ìbúra), é igualmente um dos mais importantes itens, sobretudo porque desde a iniciação, a pessoa cria vínculos de promessas à Casa  e a sua Divindade. 

O respeito (Òwò), a que todos devem entre si, sobretudo aos mais velhos pela sua antiguidade e experiência. 

Ser verdadeiro (Olóòtòo), é uma virtde essencial de uma comunidade. 

Ser justo e sincero (Olóòdodo). 

Fazer caridade (Ìféni). 

Respeitar os tabús (Èwò), é também de grande importância. Não se deve transgredir as determinações do que deve ser feito, evitado, comido, vestido conforme a vontade das Divindades, sob pena de gerar as chamadas kizilas. 

A literatura de Ifá, é a maior fonte deste valores. 

Deve-se conhecer, praticar e orientar aos consulentes  quanto às normas de conduta morais e éticas, tanto para cumprir a função religiosa inerente ao Candomblé, quanto para agradar às Divindades e para a melhora da Sociedade. A consulta a qualquer oráculo, opelê ifá, búzios, alobassá, orobô, inhame (íyan), obi, etc., não deve ser vista como a solução para todos os problemas, mas o meio pelo qual se vê, ou se previne do que está errado, buscando meios de trentar reverter ou amenizar. Importante entendermos por “errado” também as condutas incompatíveis com a ética e a moral das Divindades, e consequentemente da Religião. 

Os preceitos éticos e morais devem também nortear os vodunsis quando estes se prestarem a consultar um oráculo para atender a um consulente. Diante disto, não se deve faltar com a verdade; deve-se Ter precaução com o que se diz e como se diz; deve-se agir com bondade objetivando a caridade; e sobretudo deve-se Ter fé, para que a intuição seja norteadora da consulta junto às divindades. 

Márcio de Jagun Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br)

 

 

Sobre o autor

tomeje

Axé à todos. Sou o Tomeje. Iniciado em 27 de outubro de 1987 para o Orixa Ogun. Desde que conheci a religião dos Orixás eu sempre me preocupei em apreender qual a função da religião e da religiosidade na vida das pessoas. Eu quero entender como isso funciona. Como a religião e a religiosidade formam a fé de alguém. São muito anos de perguntas, muitos questionamentos pessoais e poucas respostas e creio que seguirei assim, aprendendo sempre.
Agora, graças a essa nova tecnologia, tenho uma oportunidade de interagir e trocar experiencias e vivencias dentro da religião e assim aprender uns com os outros. Eu mais que vcs, com certeza, aprendo a cada pergunta.
Eu tento compreender a nossa religião pensando sempre numa comunidade que se ajuda mutuamente. E não é diferente neste meio de comunicação, que assim como os livros, discos, cadernos, fitas, dvd's e outras ferramentas de divulgação de conhecimentos, este blog é somente mais uma forma de comunicação.
Porém este nova possibilidade não deve ser pressuposto para descuidarmos do aprendizado com nossos mais velhos nas roças, no seu dia a dia. Ainda que por vezes seja difícil, eu aprendi que é na roça que se vive a realidade da religião.
Meu trabalho aqui é muito mais do que só falar e responder questionamentos a cerca da religiosidade. Meu objetivo é promover a discussão de assuntos que nos afetam direta ou inderetamente, é lembra-los que somos parte do TODO, que somos uma só comunidade e que o indivíduo, apesar de dos seus anseios pessoais, está inserido numa família de axé e, neste contexto, quanto mais se pensa coletivamente, mais o individuo se fortalece.
Candomblé só se faz no coletivo.
Sejam todos muito bem vindo a este projeto e que nossos queridos Orixas nos encaminhem sempre no melhor destino. Axé, Tomeje.

6 comentários

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  1. Joaquim Nunes de Alencar

    Por gentileza, gostaria de saber o significado da palavra DEKÁ.
    Sei que o DEKA é a feitura de santo de 7 anos atc.,mas o quec eu quero, é o significado da palavra.
    Antecipadamente, obrigado pela atenção.

    1. tomeje

      Joaquim Nunes Alencar, seja muito bem vindo. Taí uma pergunta que eu já fiz também e que a resposta foi vaga, mas que me deu ao menos um ideia do significado da frase “Deká”. Nem todas as palavras que pronunciamos em língua ritual são apenas palavras, na sua maioria são frases ou contrações de duas ou mais palavras para formar ou dar uma nova conotação a um assunto ou coisa. Por exemplo Yansa, esta é na realidade uma frase comprimida numa única expressão, Yá Messan Orun. E assim temos diversas outras. No caso de Deká a explicação que eu recebi foi que o frase está ligada ao momento em que o filho estaria apto a recolher ou colher os frutos dos eu trabalho.
      Mas vc citou que “Sei que o DEKA é a feitura de santo de 7 anos”. Meu irmão isso eu nunca ouvi falar. A iniciação é uma etapa única, apesar de algumas Casas até rasparem novamente o iniciado quando este completa sete anos, isso não significa uma “feitura” ou “complemento de feitura”. E o que eu julgo mais importante de te dizer é que o conceito de deká é bem diferente do que está feito em hoje em dia, onde todos os filhos que completam sete anos recebem deká como se fosse normal e certo. Meu irmão o deká só entregue a quem tem cargo de sacerdote, todos os demais que completam sete anos passam pelas obrigações de sete anos e ponto final, não deveriam receber deká nenhum, poderiam receber cargo na Casa e ficar lá como Oloyê, mas nunca com deká. Deká não é sinônimo de sete anos, isso é fundamental que compreendamos na nossa religião. Axé, Tomeje.

  2. LUCIA

    MOTUMBA . ABENÇA AOS MAIS VELHOS . GOSTARIA DE SABER SE UM VODUM PODE ABRIR CASA DE AXE COM TRÊS ANOS PAGOS E SE ELE PODE RASPAR E DAR CARGO DE SANTO , E SE A SUA ESPOSA PODE SER MÃE PEQUENA DA CASA PELO QUAL A SENHORA E VICIADA EM DROGAS. GOSTARIA DE SABER SE E VALIDO A COBRANÇA DE VALORES PARA EBÓ E OBRIGAÇÕES QUANDO A CASA SE DIS SER DE CARIDADE.

    1. tomeje

      Lucia seja bem vinda ao blog. CORRE, CORRE LOGO DESTA CASA rsrsrsrsrsrsrsrs Querida raramente eu brinco assim, ok? Mas diante dos absurdos que vc presenciou ou soube, a única opção é brincar, né???
      Um Yawo só se torna capaz de abrir Casa quando isso está no caminho da vida dele, e quando ele tem competencia para isso. E não é yawo que “acha” que pode abrir Casa, nada disso, é o sacerdote dele que autoriza e que lhe ensina sobre ser dirigente de uma Casa. Aos 3 anos NENHUM yawo pode raspar ou abrir casa. Isso é errado. Sobre cobranças de valores é outro assunto. Uma Casa de Axé cobra sim, nada exorbitante, mas é preciso ter dinheiro pra manutenção da Casa, não para pagamento de salário ao sacerdote, são coisas diferentes.
      Te aconselho a ver muito bem onde vc está frequentando e ficar atenta, não me parece que vc esteja num bom caminho. Asé, Babá Tomeje.

  3. varvalho

    pode um filho raspar e na saida receber o DEKA?

    1. tomeje

      Varvalho, seja bem vindo. Isso é impossível, não tem base na liturgia. É triste veer que algumas pessoas fazem o que querem da nossa religião, né? Asée felicidades, que Ogum lhe de bons caminhos. Babá Tomeje.

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