A COZINHA DE SANTO (ILÉ ÌDÁNÁ): Pai Marcio de Jagum

A COZINHA DE SANTO (ILÉ ÌDÁNÁ):

 

No idioma yoruba, a cozinha de santo é denominada ilé ìdáná, que resulta da união dos vocábulos ilé (casa), ìdá (criar), iná (fogo).

A cozinha de santo é o espaço sagrado onde são elaboradas as comidas votivas utilizadas em todos os tipos de rituais: as oferendas com as mais diversas finalidades (ebós), os axés, as refeições daqueles que estão recolhidos em Obrigações rituais e também o oṣu (o símbolo máximo e indispensável colocado sobre a cabeça dos iniciados).

Devido a esta relevância, geralmente o Ilé Ìdáná é construído como uma dependência exclusiva, a fim de garantir a privacidade de certos preparados os quais somente os iniciados podem conhecer. Desta forma, “cozinha de santo” e “cozinha do povo”, se distinguem por terem finalidades específicas. Enquanto uma serve unicamente ao ritual, a outra cumpre o papel usual de servir para a alimentação de todos os componentes do ẹgbẹ´ durante as funções e também no preparo dos quitutes especiais nos momentos festivos da Casa.

Vale dizer que a comida na Tradição ioruba é de fundamental importância. Na Casa de Santo “tudo come”, como se costuma dizer. A terra, os atabaques, os Orixás, a Cabeça, o povo… tudo come.

Para os Candomblés, a comida detém um importante condimento cultural, quase místico: a sociabiliadade.

De todos os atributos da comida, seja servida para os componentes da Casa, para os visitantes, ou para as divindades, a interação proporcionada pelo ato de “comer junto”, certamente é o mais relevante.

Independentemente das diferentes formas de se preparar, servir e consumir, a comida votiva simboliza a comunicação, a harmonização e a amizade.

Considerando a importância do ato de comer como integração entre os homens e entre estes e os deuses, a cozinha de santo serve como palco desta importante parte da ritualística afro brasileira.

É no Ilé ìdáná, que são também perpetuadas tradições milenares, como a preparação de comidas litúrgicas. Por exemplo, podemos destacar o mitológico acarajé, que serviu aos ancestrais africanos como elemento mágico e que também foi marcante na história da luta contra a escravidão no Brasil, pois na comercialização deste nas ruas do Rio e de Salvador, que as chamadas escravas de ganho conseguiam amealhar as quantias necessárias para a compra da alforria dos seus.

Por tudo isso, as cozinhas de santo são verdadeiros templos de cultura, tradição e religiosidade. Dentro dela, só devem ingressar aqueles credenciados pela Ìyágbàsè (ìyágbà – senhora; sè – que cozinha).

Durante o preparo dos quitutes, é necessário manter a concentração e o silêncio respeitoso. A cozinha de santo não é lugar de muito movimento, nem de falatório. É lugar de observação, de aprendizado e de “fuxico”, na gíria dos Candomblés. É lá dentro que se aprendem os segredos que curam, os preparados que amansam a ira dos deuses, os agrados que ajudam a vencer os percalços da vida.

Antes do preparo de quaisquer comidas de utilização ritual, deve-se acender uma vela e coloca-la no chão, ao lado de um copo com água. Assim é mantida a tradição: a vela representa o fogo que era aceso por nossos ancestrais desde os primórdios no Ilé ìdáná, assim como a água simboliza a vida que o alimento perpetua.

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Márcio de Jagun

17/7/13

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