CURA (ÀBÀJÀ) – AS MARCAS RITUAIS

  1. CURA (ÀBÀJÀ) – AS MARCAS RITUAIS

Um dos principais marcos estéticos iorubas são as incisões no rosto, denominadas naquele idioma como àbàjà, àkọlà, ou ìkọlà.

Cada etnia caracterizava-se por diferentes cortes no rosto de homens e mulheres.

Esta prática, originalmente, tinha como objetivo a identificação dos grupos étnicos. Mas com o tempo, ganhou contornos de beleza estética (moda) e até de prática religiosa.

As incisões no rosto facilitavam a identificação dos guerreiros durante as batalhas e favorecia que se apoiassem em qualquer situação. Ou seja, a partir da observação das marcas faciais, os soldados se reconheciam como “irmãos” e se protegiam, amparavam, socorriam. A marca facial adquire assim, uma conotação de “proteção” da integridade física.

Este sentido foi transportado e adaptado para o ambiente religioso, que passou a representar as incisões feitas no corpo dos iniciados no Candomblé como formas de proteção contra os males e contra os inimigos.

Denominadas como “curas”, nos Candomblés, as marcas rituais (àbàjà), não são feitas no rosto, mas nos braços, peito e costas, também servindo para caracterizar as Nações originárias daquele culto.

As mulheres iorubas também se embelezavam fazendo desenhos no rosto, no tronco, braços e pernas com plantas como o bùjẹ, lààlì, ẹfun e wájì e òsùn (principalmente em casamentos, nascimentos e posse de um novo rei).

As pinturas serviam para finalidades estéticas e religiosas. Poderiam significar fertilidade, longevidade, paz, sedução, conforme a tintura e a disposição.

Orifícios nas orelhas, nariz ou lábios, também eram procedimentos de valor estético, na cultura ioruba.

As pinturas no corpo, assim como as marcas corporais, foram igualmente reproduzidas no ambiente religioso em rituais de Candomblé.

Na nossa Religião, realizar as curas na 6ª feira santa, é um marco de proteção para o ano todo. É neste momento que se “fecha” (protege) o corpo dos perigos. É um dia de resistência cultural, tradição, união e proteção.

O ritual da cura é tradicionalmente realizado nas Casas de Candomblé, no dia de Sexta Feira Santa, durante a Páscoa cristã. Vale dizer que “Páscoa” significa passagem – tanto para os hebreus (em referência à passagem da escravidão no Egito para uma nova vida em Jerusalém), quanto para os cristãos (em alusão à passagem da morte de Cristo para sua a ressurreição).

No Candomblé não há rito similar à Páscoa. Para nossos ancestrais, esta data foi uma simples oportunidade derivada do feriado cristão.

Costuma-se realizar o ritual do àbàjà antes da refeição, porque o corpo em jejum está mais sensível, propício. Não há risco de estar com má digestão, ou pesado em decorrência de energias derivadas de certos alimentos e bebidas.

Os elementos utilizados no àbàjà são o vinho, a canjica e o pão. Certamente uma absorção derivada do sincretismo religioso com os catolicismo.

A cura (àbàjà) é um símbolo da proteção de nosso corpo – altar vivo dos Orixás (àwọn Òrìṣà).

Márcio de Jagun
Babalorixá, escritor e professor de cultura ioruba.
ori@ori.net.br

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