Iorubá dos terreiros, final.

Iorubá dos terreiros

Créditos

PRODUÇÃO

Pesquisa bibliográfica, entrevistas e elaboração dos textos:  Agnes Mariano / agnesmariano@gmail.com

Se, no iorubá nigeriano, café virou uma corruptela de coffee, na Bahia, a opção dos antigos foram as aproximações poéticas: café virou água preta, “omi dudu”, explica Lidiane Silva, 19, do Ilê Axé Oxumaré, e igreja ficou sendo casa de Deus, “ilê olorum”, diz o professor Baraúna. A maior dificuldade que os ingleses enfrentaram para sistematizar o iorubá foi também a maior vantagem com que contaram os descendentes de africanos ao redor do mundo para não esquecer a língua dos antepassados: para falar iorubá é preciso cantar as suas palavras. Ou seja, sendo uma língua tonal, o sentido do que está sendo dito é definido pelo tom em que se fala, pela sílaba que é enfatizada. Por isso, vemos tantos acentos e sinais no iorubá escrito, que tentam reconstituir a melodia da fala, mostrando se a sílaba é alta, média ou baixa, “se está em dó, ré, ou mi”.

Autor de um dicionário português-iorubá com 40 mil verbetes, ainda não publicado, o professor Baraúna garante que aprender iorubá não é difícil. “O vocabulário é pobre, como o inglês. São sete vogais e a maioria das consoantes é parecida com as nossas, mas existem algumas letras e fonemas nossos que eles não têm, como v e z”. O sinal que se coloca sob algumas letras (Ọ, Ẹ e Ş) serve para formar uma nova letra. No caso das vogais, o sinal (ponto, traço ou rabinho) em baixo do “e” e do “o”, abre o som: por isso, o “e” iorubá fica igual ao nosso “ê”, enquanto o “ẹ” equivale ao nosso “é”. O sinal grave indica uma tonalidade baixa, e o agudo, tonalidade alta, como a nossa sílaba tônica. Assim, ilé – casa – tem um significado e pronúncia diferente de ilè. O “ş” equivale ao nosso “x” e o “j” pronuncia-se “dj”, como em Djalma, já a letra “c”, que não existe em iorubá, é substituída por “k”.

Segundo os professores de iorubá, muitas razões levam jovens, adultos e até crianças a se interessarem pelo aprendizado da língua. “A clientela é variada, já tive como aluna uma garotinha de 8 anos e uma pessoa de 90. Boa parte dos meus alunos é de pessoas de terreiros, inclusive eu já dei cursos dentro de terreiros e às senhoras da Irmandade da Boa Morte”, explica Baraúna. Estudiosos da cultura africana e “pessoas que querem se identificar com a raiz e cultura negra” também são alguns dos interessados nesses cursos, conta o professor do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao) da Ufba, Ajayi. Há algumas décadas, quando lançou a sua gramática de iorubá do lingüista Edson Nunes, a extinta editora baiana Progresso pensou que a vendagem seria um fracasso, mas, em 30 dias, esgotaram-se os mil exemplares, conta o jornalista Fernando Rocha, que escreveu um livro sobre a editora.

Morar em Salvador, “uma cidade onde impera a negritude”, foi motivo suficiente para o dentista Agnaldo Magalhães debruçar-se sobre a língua iorubá. Ele já está concluindo o seu curso este ano. “Eu freqüento as aulas de quinta com o professor Baraúna e também faço o curso dele por correspondência”. Através de cartas e fitas, Magalhães mantém o intercâmbio com falantes da língua de outras cidades e estados. O respeito ao legado iorubá pode aparecer de outras formas também: a família baiana Alakija foi a primeira, no Brasil, a registrar-se com um sobrenome iorubá. “Até hoje, temos contato com parentes em Abeokutá”, conta Ana Alakija.

Quem são os iorubás
Os iorubás, chamados no Brasil de nagôs, fazem parte do grupo cultural sudanês, que incluía também os jêjes, os minas e os haussás. Os iorubás ocupavam a região do Golfo da Guiné, atuais Nigéria, Benin e Togo. Em seu livro Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo de Benin e a Bahia de Todos os Santos, o antropólogo Pierre Verger explicou, com números, porque a etnia iorubá é tão predominante na Bahia: nas últimas décadas do tráfico de escravos, principalmente durante a fase ilegal, um enorme contingente de iorubás foi trazido para cá. Um outro detalhe é que os núcleos familiares não foram desmembrados, como aconteceu aqui com outras etnias.

Se as coisas não foram boas para os iorubás que vieram para o Brasil, quem ficou na África também enfrentou muitas dificuldades. Hoje em dia, a maioria dos iorubás está no sudoeste da Nigéria, o país mais populoso da África: são 120 milhões de habitantes, sendo 40 milhões de iorubás, explica o professor Ajayi. Como acontece nos outros países africanos, séculos de escravidão e colonialismo europeu deixaram graves seqüelas. Dos anos 60 para cá, quando tornou-se independente da Inglaterra, a Nigéria já enfrentou uma guerra civil e 15 anos de ditadura. Ano passado, pela primeira vez um presidente foi eleito democraticamente: Olusegun Obasanjo, o primeiro iorubá a chegar ao poder.

Assim como o Brasil, a Nigéria ainda luta para transformar a sua enorme diversidade cultural (250 etnias) e riquezas naturais (é 8º produtor mundial de petróleo, jazidas de gás natural, carvão, estanho, banhado pelo Rio Níger) em melhores condições de vida. Violência, morte, fome e pobreza ainda fazem parte do cotidiano dos iorubás e seus descendentes dos dois lados do Atlântico, mas ninguém está pensando em desistir. Na busca de construir um futuro melhor, uma grande fonte de inspiração para baianos e africanos continua sendo o modo antigo de viver em comunidade dos iorubás, em que a tradição e a palavra dos mais velhos é sempre respeitada.

Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

error

Enjoy this blog? Please spread the word :)