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Exú venceu, mais uma vez!

Claro, não podia não falar, sobre a escola de samba campeã do RJ em 2022.

Alô racistas de plantão……..chegou a hora, Exú se tornou campeão rs, se tornou ou sempre foi ?

Então, vamos lá aos fatos, no último Carnaval o nosso estado movimentou 4 bilhões, e em torno de 08 bilhões no Brasil todo, aproximadamente 45 mil empregos, so em nosso estado, em um país onde as pessoas estão saqueando os mercados, nada mau não é mesmo ?

O Carnaval segue a risca o entendimento do que é cultura , ele trás na avenida, histórias de senhores e senhoras incríveis, trás as memórias ancestrais culturais pretas, que muita das vezes não são contadas nos nossos livros.

Este ano as divindades Africanas, ou seja, os Orixás vieram com força, mostrar ao mundo que nós existimos, somos diferentes, é sobre isso e está tudo bem !

E como todos sabem , é o nosso grande comunicador, mensageiro, a boca que tudo come, o dono das encrizilhadas, o Orixá mais parecido com nós humanos, e o primeiro em nosso xirê, então este ano na avenida , não poderia ser diferente, Exú campeã!

Sem se falar que pesquisas mostra um aumento de 141% de ataques aos nossos terreiros, neste ano , o racismo religioso cresce expressivamente, e uma escola de samba, falar sobre Exu, vindo de Caxias e se tornar campeã, isso é algo incrível, uma vez que Caxias até tem caminhada contra racismo religioso, a qual eu mesma já participei.

Foi escola campeã do Grupo Especial do Carnaval pela primeira vez na história em 2022. Também foi vice-campeã em 2006, 2007, 2010 e 2020,

EXU, NÃO ANDA ATRÁS DE NINGUÉM RSRS, PALAVRAS DO MESTRE Comendador Ogan Bangbala , Ogan Luiz Bangbala!

Fala, Majeté! Sete Chaves de Exú, se tornou campeã e Exú, disse ao mundo que ele não é o diabo!

Parabéns a todas, todos e todxs envolvidos, por ter encarado de frente o racismo religioso e ter soltado a nossa voz….laroê Exú!

E hoje no dia seguinte , esperamos ter mostrado mais uma vez , como movimentamos a cultura e a economia deste país, por tanto, esperamos não ter tantas dificuldades para acessar recursos e políticas públicas culturais, esperamos que nos reconheça quando nós batemos nas portas das secretárias e pedimos a ajuda para que essas diversas culturas ancestrais continue resistindo.

Nós já entendemos que, um das maiores motivos que faz um país se torna atrativo e a cultura.

#cultura
#appigba
#povostradicionais
#conselheiradeculturaestadual

Arethuza Dória

2022, um desfile dos deuses – obra do inconsciente ancestral)

Escrito de um padre e psicólogo preto, na “segunda-feira de cinzas”, às Escolas de Samba do Rio de Janeiro e São Paulo: por uma leitura religiosa e psicológica do Danado do Samba

(2022, um desfile dos deuses – obra do inconsciente ancestral)

Como sacerdote católico inclino minha alma preta à ancestralidade e divindades africanas e diaspóricas que, no Carnaval de 2022 decidiram, sem reservas, atravessar a passarela sagrada do Samba. Puxando um diálogo possível entre religiosidade e psicologia profunda, posso dizer que 2022 foi, de modo singular, um desfile dos deuses, fatores psicológicos por excelência, segundo olhar junguiano. Dizendo de outro modo, simbolicamente, 2022 foi o Carnaval da incorporação, o desfile do transe: os deuses africanos passaram pela Avenida para compensar o caos produzido pela pandemia. Da pandemia à Passarela! O inconsciente coletivo, na acepção junguiana, opera por compensação. Nessa perspectiva, o inconsciente ancestral brasileiro (“com seus mitos e seres de luz”, nas palavras de Arlindo Cruz) foi constelado na cadência bonita do Samba. Se o mitólogo Joseph Campbell escreveu profundamente sobre o poder do mito, podemos dizer que o carnaval 2022 exibiu o poder do Samba.
A propósito, certa feita, o psicólogo Carl Gustav Jung, pai da psicologia analítica ou junguiana, disse à psiquiatra rebelde, Nise da Silveira, que se ela não entendesse os mitos de seus pacientes não seria capaz de acessar o inconsciente profundo dos mesmos. Nesse mesmo horizonte analítico, sem compreender os mitos africanos e diaspóricos é impossível acessar o Brasil profundo – o inconsciente ancestral. E é nele que jaz a potência da raça. Se o poder colonial nos obrigou a saber de Hermes, por exemplo, o poder do Samba nos convida a saber de Exu. Cantou Elza Soares que Exu deve ser aprendido nas escolas. E por que não empretecer o conhecimento (Beija-flor,2022)? Que flecha certeira nos oferece Oxossi (Mocidade, 2022) capaz de fazer cair por terra o mostro da colonialidade racista do saber, do poder e do ser?
Mais do que quaisquer arcenais bélicos, o povo preto, em diaspóra forçada, encontrou na religiosidade suas armas mais poderosas.
Para Jung, os deuses, fatores psicológicos, como já disse, são os que mais trabalham, são os que mais lutam no invisível da vida. Carnavalescamente falando, os deuses são, pois, os que mais desfilam! E isso é uma ocorrência religiosa de real grandeza!
Então, puxando um diálogo possível entre religiosidade preta, psicologia profunda e pandemia, independente da escolha dos jurados (RJ/SP), se pode dizer, sem vacilar, que a grande campeã do Carnaval 2022 é a ancestralidade preta – o poder do sagrado, dos antepassados, da religiosidade insurgente, dos mitos e símbolos vivos do povo, dos deuses que, abusada e festivamente, montando em corpos pretos, desde as Áfricas, são capazes, com a ciência, de transformar a travessia de uma pandemia inclemente e avassaladora em passarela do Samba, em passarela da Vida, em caminho aberto para um novo tempo com mais brilho, mais sorriso, mais potência e mais arte.
O Carnaval 2022, no seu conjunto, não foi obra meramente humana. A propósito, em chave ancestral, não há humano separado do divino. Não há divórcio entre o céu e a terra, ou entre o aiyê e o orum. Os mundos se comunicam. São interdependentes!
Concebo, pois, o danado do Samba como Jung compreendeu a vida: “planta que extraiu sua vitalidade do rizoma. O que aparece é breve floração e logo desaparece. Mas o rizoma persiste”.
O Carnaval 2022, de modo exemplar, reverberou de onde o Samba (e a gente preta) extrai sua vitalidade e potência.
Na obra “O segredo da flor de ouro”, Jung afirma que os deuses são o verdadeiros atores no palco da vida; ou na passarela da existência humana, pessoal e coletiva – os arquétipos! Como esquecer os antepassados (mangueira, 2022)? Donde vem a força da resistência (Salgueiro, 2022)?
Os que mais trabalham desceram para dizer Sim à vida, para realizar curas nas psiques feridas pelo horror da pandemia. Enunciam os tambores: não basta sobreviver! Eis porque passarela em transe… Vida incorporada!
O invisível fez-se visível e palpável… O Baobá (Portela, 2022) me contou: foram eles, em “memórias ancoradas em corpos negros”, os que mais sambaram. Foi o desfile dos deuses – obra do inconsciente ancestral!
Eis, pois, sagrada e potente mensagem, religiosa e psíquica, do Carnaval 2022 para o pós-pandemia: as divindades africanas não abrem mão das humanas criaturas (e vice-versa). Os negros e negras crêem em divindades que sabem dançar… Sambamos; logo, existimos!
Por essas e outras, escreveu o intelectual Alberto da Costa e Silva ser o Brasil “um país extraordinariamente africanizado”.
Como descrevem Antônio Simas e Rufino, em “epistemologias das macumbas”, o povo preto é como Exu – boca coletiva – come de um jeito (come o mundo) pra cuspir de outro: reinventamos a vida!
O caminho está aberto… Eles estão no meio de nós! Por isso, apesar dos pesares pandêmicos, a noite ficou mais calma e mais bela. Nossos ouvidos cansados da batalha da vida ouviram da ancestralidade:
“BOA NOITE, MOÇA, BOA NOITE, MOÇO!”.

“Aqui na terra é nosso templo de fé. Fala, Majeté!” (Grande Rio, 2022).

Pe. Gegê Natalino

O sacrificio animal.

O SACRIFÍCIO ANIMAL:

“Com efeito, quase todas as coisas, segundo a Lei, se purificam com sangue e sem derramamento de sangue não há remissão.”

(Hebreus 9:22)

Certamente este tema é provocador da maior polêmica em torno do Candomblé e seus Ritos.

Contudo, é bom destacar que o sacrifício animal não é invenção dos nativos africanos, nem tampouco os Cultos de Matriz Africana foram os únicos a utilizar esta pratica na sua liturgia.

Na Grécia antiga, os fiéis eram consagrados a determinadas divindades com as quais tinham maior relação e frequantavam seus respectivos templos, onde se reuniam em torno do “bomos” (um bloco quadrangular de pedra), no qual os animais eram sacrificados.

Eram abatidos animais domésticos, principalmente bois e carneiros. A cabeça era separada do corpo com a machaira (uma espada curta) e colocada no cesto ritual (o kanun). O sangue vertido, era também separado e finalmente o animal tinha suas partes cortadas. As gorduras e os ossos de maior porte, eram separados da carne para serem cremados no altar.

As visceras (splanchna) eram grelhadas em espetos pelos executantes e depois distribuídas entre os pesentes, estabelecendo a comunhão entre os deuses e os adeptos.

A carne também era preparada e consumida em partes iguais pelos participantes no mesmo local, durante a festa de celebração.

Somente a língua e a pele dos animais sacrificados, ficavam separadas com o sacerdote que efetivara o ritual.

Vale dizer que na sociedade grega, só era consumida a carne dos sacrifícios.

Hermes, filho de Zeues e Maia, era o deus grego da fertilidade, da comunicação, dos caminhos, mensageiro dos deuses, patrono dos comerciantes e da eloquência. Suas oferendas incluíam incenso, mel, bolos, porcos e principalmente carneiros. O grande Zeus preferia bodes, touros e cabras.

As homenagens a Hermes (as hermas), eram colocadas em locais de passagem, como esquinas e portas.

As hermas consistiam em pequenas estátuas do busto de Hermes e de um falo semi-ereto.

Era comum que os exércitos levassem cabras em suas viagens, para sacrificá-las antes das batalhas em busca do apoio dos deuses para a vitória.

Outro hábito dos gregos, era derramar um pouco de vinho no chão antes de beber, oferecendo aos deuses. Este ato era conhecido como “libação”.

Também o Judaísmo pratica o sacrifício (korban). Sua base teológica é resumida pelo vocábulo hebreu “karov”, que quer dizer “vir para perto de Deus”.

É clássica a passagem do Velho Testamento (Gen., cap. 22)),em que Moisésé testado por Deus e leva Isac, seu próprio filho, para ser sacrificado. Mas na última hora, Deus revela que queria apenas provar sua fé. Neste momento, libera Moisés de matar o filho, mas o profeta sacrifica então um cordeiro em seu lugar.

Segundo os exegeteas da Bíblia hebraica, os sacrifícios serviam a dois propósitos: selar uma aliança entre Deus e o povo de Israel, e para que Deus perdoasse os pecados (o animal morto estaria sendo punido no lugar do pecador).

Os árabes também realizam o sacrifício litúrgico de animais (udhiyah).

Os muçulmanos se baseiam no Corão (22:37) para agradar Alá com o sacrifício de cordeiros, ovelhas, cabras, vacas e camelos.

A matança pretende, além de servir como oferenda a Alá, ajudar os pobres e para reviver a experiência do Profeta Abraão (o mesmo citado acima).

O ritual do abate animal em sacrifício litúrgico no Islã, é denominado pelos muçulmanos como Dhabĥ. A garganta e as veias jugulares são cortadas rapidamente com faca bem amolada. A espinha dorsal e o pescoço não podem ser quebrados até que o animal pare de se mecher, evitando dor. Este e o único procedimento ritual de sacrifício, sendo rejeitado qualquer outro método.

A carne resultante da matança, é então distribuída entre os parentes necessitados. Contudo, conforme o propósito ou da situação, pode ser consumida pela pessoa que sacrificou o animal. Qualquer animal deve ser sacrificado conforme o método acima, independentemente se a carne será utilizada em comemoração religiosa ou para consumo pessoal. Nessas condições, é então considerada “halal”, e própria para consumo.

No Candomblé os rituais de sacrifício são basteante rígidos e repletos de critérios. Primeiramente, acredita-se que os animais sacrificados já nasceram com este propósito. Razão pela qual, como integrantes da natureza, devem ser respeitados e jamais maltratados.
Os sacrifícios são precedidos de rezas que louvam aquele animal e pedem licença para que sejam abatidos.

Durante o ato, novas rezas são entoadas para que o sangue vertido converta-se em laços entre os seres e os deuses.

Para a Cultura yorubá, o sangue (èjè) é o elemento mais importante no ritual do sacrifício. É o condutor do axé (àse = fluido mágico invisível e essencial, presente em todos os elementos, condutor da vida e da energia).

Ele deve ser vertido primeiramente no chão, saudando Onilè (a divindade dona da terra) e posteriormente derramado sobre os símbolos e insígnias dos Orixás (ìdí òrìsà).

O sangue é o principal elemento da vida, e como tal é o elemento sagrado que faz a ligação entre o material e o espiritual. O sangue anima o corpo e dá à matéria a capacidade de ser animada pelo espírito.

Após a morte, são separadas as partes vitais concentradoras de axé, como o coração (okàn), pulmão (fúkù-fúkù), fígado (èdò), rins (iwe inú), a cabeça (orí), as patas e os órgãos genitais.

As demais partes do animal também são aproveitadas, até mesmo as penas. Nada é desperdiçado. A carne é consumida pela Comunidade (caracterizando a comunhão entre os homens e estes e seus Deuses), e o couro utilizado nos instrumentos de percussão (atabaques).

Somente pessoas qualificadas e preparadas podem realizar o sacrifício. Existe um cargo específico (asógún) para aqueles que abatem os animais em oferenda aos Orixás.

O animal não deve sofrer. Todos os cuidados devem ser adotados neste sentido. Somente pode ser concretizado o sacrifício, se o animal resolver comer as folhas sagradas que lhe são oferecidas pelo oficiante. Caso contraário, entende-se que os Orixás não aceitam o sacrifício daquele ser.

Cada Orixá tem seus animais preferidos para o sacrifício. Em geral, são utilizados cabras e cabritos (eran elésèmérin), carneiros (agutan), cágado (ajapá), frangos (adíe), galos, galinhas d´angola (etú), caramujo (èrò, ou igbi), pombos (eiyelé). Cada qual com uma finalidade e um simbolismo litúrgico.

Os aimais de sacrifício são escolhidos pelos Orixás conforme sua relação e finalidade: o cágado (preferido por Xangô, o deus que ama a vida), por sua longevidade; o pombo (preferido por Oxalá, o deus da ética e da moral), por representar a honra e a serenidade; o caramujo (também apreciado por Oxalá e outros Orixás, conforme a necessidade do seu sacrifício), por simbolizar a calma, a docilidade, a tranquilidade e a paz; a galinha (usada para agradar a todos os Orixás, sendo usados machos ou fêmeas conforme o sexo do deus ao qual será a oferenda), tem suas partes aproveitadas por diversas razões: as penas do peito (iye), que aquecem os pintinhos, servem para cobrir os assentamentos dos Orixás (ojubó) representando a proteção que se espera dos deuses; o bico, para levar aos deuses os pedidos feitos; as patas, para conduzir na direção correta dos Orixás as súplicas dos fiéis; as asas, para equilibrar a jornada; o rabo (para direcionar o caminho, como um leme).

Todos os Orixás recebem sacrifícios animais. Mas o primeiro a ser reverenciado é sempre Exu.

Há vários itans (parábolas dos Orixás) que explicam situações pelas quais Exu tem a prerrogativa de ser agradado primeiro. Separamos uma delas:

Exu era o filho mais novo de Orunmilá e de Yemanjá e irmão de Ogun e Oxossi.

Por ser caçula, era o último a comer.

Só comia as sobras dos animais caçados por Oxossi.

Só comia as sobras dos campos conquistados por Ogun.

Exu se revoltou e começou a comer tudo que via em sua frente.

A fome de Exu era incontrolável.

Certo dia, amanheceu e comeu todos os animais da vila em que vivia.

Outro dia, a tarde, comeu todos os cereais, frutas, inhames e pimentas.

Em outra data, a noite, resolveu beber todo o vinho de palma, a aguardente e o azeite de dendê que estavam sendo preparados.

A fome de Exu era sem fim. Nunca parava. Nunca diminuía. Quanto mais Exu comia, mais queria fome.

Depois de comer o que mais gostava, Exu começou a devorar as árvores, as flores, os pastos e os rios.

Todos da aldeia temiam ser também comidos por Exu.

O povo foi a Orunmilá, pai de Exu, pedindo sua intervenção.

O grande deus então ficou irado quando soube do caso, e percebeu que se não detivesse Exu, este comeria até mesmo o céu e acabaria com o reinado de Orunmilá

Orunmilá pediu a Ogun que fizesse o irmão parar a qualquer custo.

Ogun fez de tudo: conversou, pediu, brigou. Mas Exu não parava de devorar tudo a sua volta.

Ogun não teve outra alternativa a não ser matar o irmão Exu

Contudo, mesmo depois de morto Exu parou de comer. Exu continuou com fome!
Todos na vila podiam sentir a presença da fome de Exu.

Exu, depois de morto, engolia agora o axé e o emi (o hálito sagrado)

Ninguém mais tinha o que comer. Ninguém mais tinha energia nem forças para caçar, nem pescar, nem plantar.

O povo começou a adoecer e morrer de fome, um a um.

O babalawô da aldeia foi consultado e alertou a Oruminlá que Exu estava querendo chamar a atenção.

O babalawô recomendou a Orunmilá que Exu não poderia ser esquecido nem vida e nem na morte.

O babalawô disse que Exu queria ser reverenciado.

Orunmilá determinou a todos, então, que nunca mais comecem nada, sem antes alimentar primeiro a Exu.

Exu, o filho caçula, ganhou então a primazia na sua família, na sua vila e em todo o mundo.

A partir daquele dia em diante, nem homens, nem deuses, por ordem de Orunmilá, poderiam comer sem antes agradar primeiro a Exu.

O sacrifício animal é uma forma não apenas de sacralizar os elementos do culto, mas de reverter em vida a morte do animal através da transferência do axé existente no sangue, na energia e nas vísceras daquele ser.

Certamente o animal sacrificado no culto, foi mais respeitado do que aquel morto nos abatedouros comerciais.

Apesar da diferença dos métodos, dos animais abatidos e dos objetivos pretendidos com os sacrifícios, a verdade é que inúmeros povos, ao longo da História da Humanidade utilizaram a mesma forma de se unirem aos seus deuses. Porém, por força do preconceito contra o negro, sua Cultura e sua Fé, apenas os abates rituais no Candomblé foram e são duramente criticados pelos ignorantes.

No sacrifício litúrgico, nada há de bestial, atrasado ou ultrapassado. Antes pelo contrário. São expressões culturais e religiosas que devem ser respeitadas, se não comprendidas.

O sacrifício (rírú ebo òrìsà = oferecer sacrifício ao Orixá) é parte de um cerimonial religioso e se propõe a vários fins, como a ligação entre os fiéis e seus deuses (comunhão), homenagem, agradecimento, purgação de erros, apaziguamento, prevenção, substituição, tudo em prol do equilíbrio energético, através da troca de energia proposta pela própria natureza (cadeia alimentar). O sacrifício serve também para a sacralização de elementos do culto.

Numa sociedade como a nossa, na qual o governo oficialmente se beneficia com o sacrifício de animais, concede alvarás, recebe taxas e impostos e contabiliza receitas com o abate e o comércio de carne, criticar os ritos sacrificiais religiosos, seria no mínimo uma hipocrisia.

A garantia dos sacrifícios rituais e seu reconhecimento cultural e religioso, já foram consagrados pelos Tribunais brasileiros e internacionais.

Neste sentido, já se manifestou o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul, na Ação Direta de Inconstitucionalidade nº 70010129690 (Relator Desembargador Araken de Assis), julgado em 18/04/2005, na qual o Tribunal Pleno, por maioria de votos, proferiu o seguinte acórdão:

“…. É fato notório que o homem e a mulher matam, diariamente, número incalculável de outros animais para comê-los. O caráter exclusivamente “doméstico” do animal, ou seu uso para fins alimentares, depende da cultura do povo. Recordo a figura do cachorro, tanto animal de estimação, quanto fina iguaria em determinados Países. E não há, no direito brasileiro, norma que só autorize matar animal próprio para fins de alimentação.

Então, não vejo como presumir que a morte de um animal, a exemplo de um galo, num culto religioso seja uma “crueldade” diferente daquela praticada (e louvada pelas autoridades econômicas com grandiosa geração de moedas fortes para o bem do Brasil) pelos matadouros de aves.

Existindo algum excesso eventual, talvez se configure, nas peculiaridades do caso concreto, a já mencionada contravenção; porém, em tese nenhuma norma de ordem pública, ou outro direito fundamental, restringe a prática explicitada no texto controvertido.

Por outro lado, há precedentes respeitáveis no sentido de consagrar a liberdade de culto. É digna de registro a valiosa contribuição do Prof. Dr. HÉDIO SILVA JR., trazendo à baila o caso julgado pela Suprema Corte dos Estados Unidos da América, em outubro de 1992 (inteiro teor à fls. 296/428), no caso Church of Lukumi Balalu Aye versus City of Hialeah. Apesar de as leis locais proibirem, expressamente, o sacrifício de animais, prática adotada pela referida Igreja, pertencente à confissão da “Santería” (proveniente de negros cubanos), a Suprema Corte entendeu que as autoridades locais deviam respeitar a tolerância religiosa…Tanto assim é que, se me permite o eminente Relator, na ementa do seu douto projeto de acórdão, assim diz:
Não é inconstitucional a lei que introduziu o parágrafo único, explicitando que não infringe o Código Estadual de Proteção aos Animais o sacrifício ritual em cultos e liturgias das religiões de matriz africana”…..Parece-me que, então, de uma vez por todas, ficaria claro que é permitido, mas não é uma permissão no sentido absoluto de que o animal possa ser sacrificado das formas, muitas vezes, mais cruéis/ e mais vis. Pelo contrário, respeitada essa linha, não me parece que haja no nosso ordenamento jurídico uma proibição quanto à morte de animais nesse sentido….” (grifo nosso)

Assim, o que verificamos é que o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul ao apreciar a Ação Direta de Inconstitucionalidade acima mencionada concluiu não ser inconstitucional a lei do estado do Rio Grande do Sul que introduziu expressamente um parágrafo único, explicitando que não infringe o Código Estadual de Proteção aos Animais o sacrifício ritual em cultos e liturgias das religiões de matriz africana, sendo certo que naquele estado o direito à liberdade de culto religioso, incluindo a imolação de animais, foi resguardada de forma expressa, ressalvadas as disposições constantes do art. 32 da Lei Federal nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1.998 e do art. 64 do Decreto-lei nº 3.688, de 03 de outubro de 1.941 – Lei de Contravenções Penais, ambas estabelecem penas para a prática de maus-tratos e crueldade contra animais.

Nesse sentido, o que se verifica é que mesmo as religiões de matriz africana estão sujeitas à legislação federal de forma que se comprovada crueldade ou maus-tratos com animais poderá haver apuração em âmbito do processo penal, não estando elas isentas da observância dessa legislação, nem sendo vedada a imolação de animais em razão disso, porém, por certo, tais fatos demandam a necessidade de produção de provas na esfera penal, sendo que a simples presunção não é suficiente para restrição de um direito fundamental.

Ademais, cabe destacar, ainda, que a decisão proferida pelo referido Tribunal de Justiça foi recentemente reafirmada em sede de Ação Civil Pública nº 70026890210, julgada improcedente pela Segunda Câmara Cível do mesmo Tribunal, por unanimidade, em 12 de agosto de 2009, com o seguinte teor:

“…Estou votando por desprovê-lo – adianto desde logo –, mantendo a sentença hostilizada, que deu adequada solução ao caso ao concluir pela improcedência desta ação civil pública. “In casu”, vê-se que Promotoria de Justiça Especializada de Novo Hamburgo, após receber comunicação anônima, instaurou inquérito civil para apurar eventuais práticas abusivas contra animais e riscos à saúde pública em razão de sacrifícios (de animais) em rituais religiosos realizados em templo localizado na Rua Humaitá, nº 545, em Novo Hamburgo.Com base em parcos elementos de convicção amealhados no inquérito civil, propôs esta ação civil pública, cuja sentença desacolheu o pedido formulado à inicial ….. razão pela qual concluiu a sentença, de lavra do culto Juiz de Direito LUIZ FELIPE SEVERO DESSESSARDS, pela desestimação da demanda, em termos que adoto como razões de decidir e incorporo ao meu voto, transcrevendo-os no que releva, “in litteris” (fls. 199-199v.):

(…) sopesado o suporte legislativo e a declaração de constitucionalidade da LEI 12.131/04, concluo que para a formação de juízo de procedência na presente demanda, imperiosa seria a comprovação de que, nos cultos religiosos empregados pelo réu ocorrem, de fato: (I) a prática de recursos de crueldade na morte dos animais; (II) o uso de animais não destinados à alimentação humana; e, (III) a inadequada destinação dos despojos do animal, para fins de resguardo da saúde pública.

No entanto, não há nos autos, minimamente, provas no sentido de corroborar às alegações da inicial, nada obstante a ampla dilação probatória facultada.

Cediço, pois, que as alegações das partes devem ser comprovadas e, na esteira de que alegar e não comprovar é o mesmo que nada alegar – alegata et probata – não há como acolher a pretensão ministerial, tendo em vista os elementos concretos coligidos aos autos, (…).

Também o ofício emanado da Secretaria de Meio Ambiente (fl. 41) não é conclusivo no sentido de que havia prática de atos cruéis. O fato de haver animais mortos no local (uma pomba e um cabrito), não leva, por si só, o reconhecimento da existência de crueldade ou excessos.

Efetivamente, entender de outro modo importaria em negar ao réu o direito constitucionalmente garantido de liberdade de culto….”

Interessante observar quais foram os únicos “senões” ao sacrifício destacados pelos Julgadores: a prática de atos de crueldade, o sacrifício de animais não utilizados para o consumo humano e a má utilização dos despojos do sacrifício causando prejuízo à saúde pública.

Negar o sacrifício ritual, seria além de ilegal, um ato de profundo constrangimento ao direito de crença e de culto, garantia de qualquer Religião.

Necessário destacar também os Tratados Internacionais que abordam o assunto:

Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos:

“art. 18, item 1. Toda pessoa terá direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião. Esse direito implicará a liberdade de ter ou adotar uma religião ou uma crença de sua escolha e a liberdade de
professar sua religião ou crença, individual ou coletivamente, tanto
pública como privadamente, por meio do culto, da celebração de ritos, de práticas e do ensino.”

Item. 3. A liberdade de manifestar a própria religião ou crença estará sujeita apenas a limitações previstas em lei e que se façam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral públicas ou os direitos e as liberdades das demais pessoas. (promulgado pelo Decreto nº 592, de 06 de julho de 1.992).

Convenção Americana de Direitos Humanos – Pacto de San Jose da Costa Rica:

“art. 12, item. 1. Toda pessoa tem direito à liberdade de consciência e de religião.

Esse direito implica a liberdade de conservar sua religião ou suas crenças, ou de mudar de religião ou de crenças, bem como a liberdade de professar e divulgar sua religião ou suas crenças, individual ou coletivamente, tanto em público como em privado.”

“Item. 3. A liberdade de manifestar a própria religião e as próprias crenças está sujeita unicamente às limitações prescritas pela lei e que sejam necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral pública ou os direitos ou liberdades das demais pessoas. (promulgada pelo Decreto nº 678, de 06 de novembro de 1.992).”

Declaração para Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e de Discriminação baseada em Religião ou Crença:

“art. 6°. De acordo com o art. 1° da presente Declaração, e sujeito às disposições do § 3°, do mesmo art. 1°, o direito à liberdade de pensamento, consciência, religião ou crença deve incluir, inter alia, as seguintes liberdades: (a) Cultuar e reunir-se por motivos relacionados à religião ou crença, e estabelecer e manter locais para estas finalidades; (b) Estabelecer e manter apropriadas instituições de caridade ou humanitárias; (c) Fazer adquirir ou utilizar na medida adequada os artigos e materiais necessários relacionados aos ritos e costumes de religião ou crença; (d) Escrever, emitir ou disseminar publicações relevantes nestas áreas; (e) Ensinar uma religião ou crença em locais apropriados; (f) Solicitar e receber financiamentos voluntários e outras contribuições de indivíduos ou instituições; (g) Treinar, apontar, eleger ou designar por sucessão líderes apropriados de acordo com as exigências e padrões de cada religião ou crença; (h) Observar dias de descanso e celebrar festas e cerimônias de acordo com os preceitos de religião ou crença; (i) Estabelecer ou manter comunicações com indivíduos ou comunidades sobre o tema de religião ou crença a níveis nacional e internacional. (adotada pela Resolução 55 (XXXVI) (1981), 21.I.L.M.205 (1982) pela Assembleia Geral das Nações Unidas).

Declaração Universal dos Direitos Humanos:

“art. 18: Todo o homem tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observâcia, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.”

Apesar do Brasil ser um país laico, a Constituição Federal Brasileira assegura a liberdade religiosa em toda a amplitude de culto:

Constituição Federal do Brasil:

“artigo 5º, VI: é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias.”

Totalmente contra todas essas correntes e bases legais, a Câmara Municipal de Piracicaba pretendeu a aprovação de uma lei proibindo o sacrifício animal naquela Cidade.

Contudo, o Prefeito Barjas Negri, atento e embasado, vetou o infeliz projeto de lei, nos seguintes termos:

“Desta forma, é por razões de inconstitucionalidade do projeto de lei ora vetado e, com base no disposto no § 1º, do art. 121, da Lei Orgânica do Município de Piracicaba, que apresentamos, tempestivamente, o presente VETO TOTAL ao Projeto de Lei nº 202/10 – Autógrafo nº 256/10, para apreciação dessa Nobre Casa de Leis, contando com o alto grau de discernimento dos Ilustres Vereadores, para que o mesmo seja acolhido por UNANIMIDADE! Piracicaba, em 01 de novembro de 2010.BARJAS NEGRI. Prefeito Municipal. ( Diário Oficial de PIRACICABA, sexta-feira, 05 de novembro de 2010, pp. 2 e 3)”.

Por fim, temos que o sacrifício animal é uma manifestação cultural e religiosa histórica, recorrente em diversas sociedades e em eras variadas.

Particularmente no Candomblé, o sacrifício segue uma tradição igualmente importante e indissociável em sua expressão ritual e litúrgica, que, a exemplo das outras Religiões, também é realizado com critério, respeito e espiritualidade. Tudo perfeitamente reconhecido pela lei brasileira e internacional.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br)

Samba contra o preconceito

O GLOBO – 21/04/2022
Por Márcio de Jagun

Samba contra o preconceito

No desfile deste ano, seis das 12 escolas de samba do Grupo Especial abordarão enredos ligados diretamente à negritude e à religiosidade afro. Algumas delas, como a Grande Rio, que falará de Exu — “Fala, Majeté! Sete chaves de Exu” —, já sofreram ataques de intolerância religiosa nas redes sociais, uma nítida e inadmissível afronta às leis que estabelecem a liberdade de credo e culto.

As escolas de samba são espaços ao mesmo tempo sociais e religiosos, extensões dos terreiros, onde os negros construíram polos de resistência, fé e criatividade. Humanos, deuses e músicas se entrelaçam no pensar, no agir e no cantar. Os ritmos sacros da liturgia afro estão no DNA do samba. Tanto assim é que as células rítmicas foram absorvidas e eternizadas. Na Mocidade Independente de Padre Miguel, o agueré de Oxóssi era a identidade de sua bateria. O mesmo ritmo, em três rufadas, falava pela Portela; assim como o ilu de Oiá inspirava as caixas e taróis do Império Serrano.

Nascido na Bahia de Todos os Santos, no Rio de Janeiro o samba brota, cresce e se desenvolve. É aqui que pretos libertos encontraram na casa das grandes “mães”, “tias” e “avós” um refúgio sereno que acalentava a alma e distraía o corpo. Eram “tias” de todos. Não escolhiam seus “sobrinhos”. Abraçavam sem olhar, ensinavam a rezar, ajudavam a viver. No bairro do Estácio de Sá, as reuniões de “semba” (diversão e alegria, nos idiomas bantu) corporificam o samba. Mas não foi fácil. A diversão do negro virou crime. O negro foi proibido de sorrir. Não podia jogar capoeira; não podia fazer “macumba”; não podia mais sambar. Mas não teve jeito… O samba nasceu para ser sambado.

Na virada dos anos 1920 para 1930, o samba faz escola. Vizinha Faladeira, Mangueira, Unidos da Tijuca e as do Morro do Salgueiro, entre outras, são criadas como educandários de samba. O ritmo é popular, mas usa Cartola.

Nem todos se conformaram com a glória do canto negro. Tentaram branquear o samba. Tentaram “desmacumbizar” o samba. Mas, quanto mais mexiam, mais ele crescia, ocupava e consolidava seu espaço na cultura musical brasileira. Ismael, Baiano e outros da turma do Estácio tinham o bloco A União Faz a Força.

Inspirado na cultura e na religião, o desfile das escolas de samba traz para a Sapucaí enredos, fantasias e alegorias com inspiração na fé ancestral. Mas são desfiles, não rituais. O carnaval representa oportunidade pedagógica única para difundir essa cultura e minimizar preconceitos. Na Coordenadoria Executiva da Diversidade Religiosa, trabalhamos políticas públicas voltadas para a liberdade de credo, atuando em apoio à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância para combater o preconceito. Independentemente da crença e do credo, não podemos negar essa parte de nossa história. O Rio é uma cidade de múltiplas expressões culturais e religiosas. A diversidade é uma de nossas maiores belezas: a beleza de nossa gente. Salve o Rio! Salve nossa diver-cidade!

São Gonçalo realiza tradicional procissão de São Jorge

São Gonçalo realiza tradicional procissão de São Jorge

Publicado em:  18/04/2022

Celebração estava suspensa por causa da pandemia

Com o intuito de resgatar uma tradicional celebração da cidade, a Secretaria de Turismo e Cultura de São Gonçalo está apoiando a realização da “Procissão de São Jorge”, que vai acontecer no próximo sábado (23), dia do “santo guerreiro”, no Rocha. O festejo, organizado pelo Projeto Cardume, vai contar com uma imagem bicentenária de São Jorge, que pertencia a Pai Avelino de Ogum, falecido em 2008, aos 105 anos, responsável por iniciar a procissão no município.

“Graças ao grande número de pessoas já vacinadas em São Gonçalo, estamos retornando dezenas de celebrações tradicionais, como a ‘Procissão de São Jorge’, que não era realizada há 30 anos. É a nossa cidade voltando ao normal e as pessoas acreditando nesse novo momento que vive São Gonçalo. Com planejamento, estamos resgatando celebrações históricas. E a religião sempre será um dos focos no desenvolvimento turístico no nosso município”, declarou o secretário de Turismo e Cultura, Lucas Muniz.

O cortejo, que tradicionalmente era realizado no bairro Gradim, sairá neste ano da Travessa Santa Rita, altura do número 517, seguindo até a Praça do Rocha, passando em frente à Igreja de São Judas Tadeu, e retornando até o ponto de partida, totalizando dois quilômetros de percurso.

“Essa procissão é um legado histórico e familiar. Em 1992, após ficar muito doente, Pai Avelino de Ogum, que era delegado da Polícia Civil no município, realizou o último cortejo. Como não tinha um sucessor em sua casa, ele deu a imagem de São Jorge, que estará presente na procissão, para Pai Elias da Tenda Espírita de Caridade João de Benguela, onde a imagem se encontra no momento. Faremos de tudo para que a procissão continue com as características tradicionais de 30 anos atrás, pois entendemos que é um legado de São Gonçalo e que deve ser preservado”, destacou Jeany Marcenes, membro do Conselho Municipal de Cultura e do Projeto Cardume.

Autor: Isabelle Villas Boas

CURA (ÀBÀJÀ) – AS MARCAS RITUAIS

  1. CURA (ÀBÀJÀ) – AS MARCAS RITUAIS

Um dos principais marcos estéticos iorubas são as incisões no rosto, denominadas naquele idioma como àbàjà, àkọlà, ou ìkọlà.

Cada etnia caracterizava-se por diferentes cortes no rosto de homens e mulheres.

Esta prática, originalmente, tinha como objetivo a identificação dos grupos étnicos. Mas com o tempo, ganhou contornos de beleza estética (moda) e até de prática religiosa.

As incisões no rosto facilitavam a identificação dos guerreiros durante as batalhas e favorecia que se apoiassem em qualquer situação. Ou seja, a partir da observação das marcas faciais, os soldados se reconheciam como “irmãos” e se protegiam, amparavam, socorriam. A marca facial adquire assim, uma conotação de “proteção” da integridade física.

Este sentido foi transportado e adaptado para o ambiente religioso, que passou a representar as incisões feitas no corpo dos iniciados no Candomblé como formas de proteção contra os males e contra os inimigos.

Denominadas como “curas”, nos Candomblés, as marcas rituais (àbàjà), não são feitas no rosto, mas nos braços, peito e costas, também servindo para caracterizar as Nações originárias daquele culto.

As mulheres iorubas também se embelezavam fazendo desenhos no rosto, no tronco, braços e pernas com plantas como o bùjẹ, lààlì, ẹfun e wájì e òsùn (principalmente em casamentos, nascimentos e posse de um novo rei).

As pinturas serviam para finalidades estéticas e religiosas. Poderiam significar fertilidade, longevidade, paz, sedução, conforme a tintura e a disposição.

Orifícios nas orelhas, nariz ou lábios, também eram procedimentos de valor estético, na cultura ioruba.

As pinturas no corpo, assim como as marcas corporais, foram igualmente reproduzidas no ambiente religioso em rituais de Candomblé.

Na nossa Religião, realizar as curas na 6ª feira santa, é um marco de proteção para o ano todo. É neste momento que se “fecha” (protege) o corpo dos perigos. É um dia de resistência cultural, tradição, união e proteção.

O ritual da cura é tradicionalmente realizado nas Casas de Candomblé, no dia de Sexta Feira Santa, durante a Páscoa cristã. Vale dizer que “Páscoa” significa passagem – tanto para os hebreus (em referência à passagem da escravidão no Egito para uma nova vida em Jerusalém), quanto para os cristãos (em alusão à passagem da morte de Cristo para sua a ressurreição).

No Candomblé não há rito similar à Páscoa. Para nossos ancestrais, esta data foi uma simples oportunidade derivada do feriado cristão.

Costuma-se realizar o ritual do àbàjà antes da refeição, porque o corpo em jejum está mais sensível, propício. Não há risco de estar com má digestão, ou pesado em decorrência de energias derivadas de certos alimentos e bebidas.

Os elementos utilizados no àbàjà são o vinho, a canjica e o pão. Certamente uma absorção derivada do sincretismo religioso com os catolicismo.

A cura (àbàjà) é um símbolo da proteção de nosso corpo – altar vivo dos Orixás (àwọn Òrìṣà).

Márcio de Jagun
Babalorixá, escritor e professor de cultura ioruba.
ori@ori.net.br

Procissão de São Jorge, São Gonçalo, RJ. 23/04/22.

O Lorogun.

O LOROGUN:

Lorogun, lórogún ou olorogum quer dizer “ritual de guerra”: oro (ritual) + ogun (guerra). É uma cerimônia que representa a ida dos Orixás para a guerra.

O lorogun marca o fim do ano litúrgico e com isso, a paralisação anual das atividades nos terreiros de Candomblé.

O lorogun é realizado no período da quaresma católica, logo depois do carnaval, terminando no sábado de aleluia (primeiro sábado da lua cheia), onde começa o início do ano litúrgico (Ano Novo) para o povo do santo.

O lorogun traz para a sala dois grupos: o exército de Xangô, onde todos trajam vermelho e branco e carregam uma bandeira vermelha; e o exército de Oxalá, com todos os membros vestidos de branco, portando uma bandeira branca.

Tudo começa com uma procissão dos 2 grupos percorrendo os quartos de Santo até o barracão, reproduzindo a viagem pelas cidades de cada Divindade.

Na sala, cada exército se coloca de um lado, sendo que os mais velhos portam cada qual seu estandarte. Todos os Orixás carregam ixãns, ou atoris e suas folhas sagradas.

Com a autorização do Babalorixá, os dois grupos se aproximam e passam bater os atoris e as folhas em todos os presentes (inclusive Orixás com Orixás). Até que Oxalá se manifeste trazendo sua calma e tranquilidade habituais ao ambiente.

Cante-se então para o grande Orixá encerrando o oro.

Em todo o período do lorogun (da quarta-feira de cinzas ao sábado de aleluia, todas as atividades dos terreiros eram suspensas, apenas mantido o amalá de Xangô às quartas-feiras).

A tradição determinava que a cada ano apenas um Orixá ficasse encarregado de cuidar da Comunidade neste período. A escolha era feita através do oráculo.

Durante o lorogun, era mantido um recipiente com a comida deste Orixá protetor.

A festa de reabertura dos trabalhos era a fogueira de Xangô.

O lorogun iniciou-se em razão da proibição dos escravos celebrarem seus cultos durante a semana santa.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br).

EFE: O NEUTRALIZADOR DAS FEITICEIRAS

  1. EFE: O NEUTRALIZADOR DAS FEITICEIRAS

Segundo Verger, Efe é um ser vindo do além que consegue neutralizar o efeito dos trabalhos maléficos feitos pelas iyá mi oxorongá, as temidas mães feiticeiras.

Efe não é propriamente cultuado como uma divindade. É um ser imaterial, uma espécie de semi-deus, dotado de alguns poderes que o fazem ser reverenciado pelos homens, mas encontra-se em um patamar abaixo dos Orixás.

A tradição de invocar Efe é grande entre os povos Ayobo, e nas comunidades Awori, Oto-Awori e Iba, na região da cidade de Lagos na Nigéria. Logo, trata-se de um mito da cultura Yorubá.

Alguns acreditavam que Efe seria o próprio Exu transmutado em pássaro.

Efe é trazido às ruas manifestado em um homem, portando uma máscara. Ele é acompanhado por três percussionistas tocando tambores a tira colo, em ritmos alegres e agitados, produzindo o som com baquetas feitas de couro duro em forma de arco.

Efe teria a capacidade de anular os trabalhos maléficos das iya mi, responsáveis por calamidades como secas, infestações de ratos, doenças, etc.

Anualmente, ainda hoje, nas ruas da cidade de Lagos, fazem-se festejos públicos invocando Efe. Isso ocorre sempre na noite anterior ao desfile das máscaras gelede.

No Brasil, este costume despareceu por completo. O antropólogo Edson Carneiro, relata que o último Terreiro de Candomblé a realizar este culto, foi a Casa Branca do Engenho Velho, possivelmente até a década de 40. A responsável era Mãe Maria Júlia de Figueiredo, iyakekerê do Ilê, que acumulava o cargo de iyalode erelu.

Era Mãe Maria Júlia quem coordenava o desfile gelede no bairro da Boa Viagem, em Salvador, sempre nos dias 8 de dezembro. E foi ela mesma quem ensinou os homens do Axé a reverenciar Efe.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori.

O poder no Candomblé.

O Poder

Ter poder, e ser de fato detentor de algum poder, são situações distintas em uma comunidade religiosa de Candomblé, isso no meu entendimento. Veja que sempre me refiro ao meu entendimento pessoal, porque o que escrevo é fruto da minha vivência religiosa. Caberia melhor dizer que é fruto da observação dos fatos e situações ao longo dos anos com pessoas que possuem os mais variados desejos de poder. Desde aqueles que rejeitam o poder que lhe é concedido, até aqueles que o desejam muito e intensamente e não medem esforços para conseguir o objetivo.

A utilização do poder e da hierarquia numa Casa de Orixá não está escrita em nenhum código explícito de conduta, nem mesmo está escrito de fato; a hierarquia e o poder existem pelo simples fato de ser assim e ponto final.

Porém, são a hierarquia e o poder bem aplicados que mantém o grupo unido em torno de um objetivo ou de alguém, um líder. Mesmo se pensarmos em um trabalho filantrópico, sem fins lucrativos, perceberemos a hierarquia por trás do projeto; há sempre um líder, um catalisador, alguém a quem se prestam contas; e numa Casa de Orixá é diferente.

O que vejo de problemático neste modelo de hierarquia e poder concentrados em mãos pouco habilidosas para o trato com as pessoas, é o fato dessa hierarquia sacerdotal estar diretamente ligada ao status que os postos de zelador, ogan, ekedji ou outro oyiê dão a alguns dignitários sem preparo e sem cultura suficientes para exercer estas funções; que lidam direta e diariamente com pessoas, com emoções e sentimentos, mas principalmente, lidam com vidas. E dessa forma, o poder se torna um comércio e uma forma de se impor pelo medo.

Para exercer corretamente o poder é necessário, além do “direito conquistado”, ter o reconhecimento e o respeito da comunidade. É necessário ser um líder nato, e não um mero ditador de normas.

Os grandes nomes de nossa religião nem sempre tiveram educação formal completa, mas tinham carisma e sensibilidade. Portanto, a educação a que me refiro nem sempre é a formal, pois educação vem de família e, como somos uma família pergunto: – Como estamos então educando nossos filhos?

Deve-se ter bem claro em uma comunidade quem é o líder e quem são os liderados. Falo em líder e liderados, não senhores e escravos. Frequentemente se confunde hierarquia com satisfação dos desejos do elemento mais graduado, confundindo liderança com imposição do medo. O bom líder orienta, o mau líder se aproveita da fraqueza do outro para diversos fins.

Como disse antes, em nossa religião não há um código de conduta escrito e formal; cada zelador é livre para fazer ou desfazer o que bem entender da forma como bem entenderem sua Casa. Logo, isso leva à formação de entendimentos particulares das noções de respeito à pessoa, e a hierarquia passa a só ter valor quando imposta de cima para baixo e de dentro para fora do grupo detentor do poder, sendo o restante do grupo relegado à condição de mantenedores do “status Real”.

Casos típicos de confusão e de má conduta ética são os zeladores que, não tendo cultura ou educação (inclusive formal), quando empossados no comando de uma Casa não hesitam em tratar as pessoas com total desprezo, principalmente os membros da sociedade civil de maior prestígio que lhes freqüentam as Casas.

A mim parece um tanto de preconceito ou revanchismo. São pensamentos retrógrados e arraigados de que, fora da Casa, se o filho de santo é um médico ou um doutor, uma vez dentro da Casa de Orixá ele fará o que lhe for ordenado, se humilhará e será humilhado. Esse comportamento, associado à falta de ascensão social e reconhecimento profissional do zelador fora do seu próprio meio social/religioso, cria situações de constrangimento e desagrado, e acabam por excluir muitas pessoas do convívio nas Casas de Orixás, porque não compactuam com esse modelo predador de liderança.

Educação talvez seja um bom começo.

Não é porque não há um código de conduta que direcione o comportamento dos graduados que estes podem dispor das vidas, desejos, anseios e liberdades alheios da forma como melhor lhes convier. Somos, no mínimo, pensantes e temos sim direito ao bom e respeitoso tratamento, pois hierarquia e poder não pressupõe opressão.

Pelos motivos acima, creio que o que constantemente leva uma Casa de Orixá a perder seus filhos e ser reconhecida como um local não muito confiável é a falta de capacidade dos seus líderes, do seu staff, em de fato liderar, indicar os caminhos e cuidar dos filhos da Casa como realmente seus filhos. Porque geralmente estes líderes estão mais envolvidos em disputas internas e silenciosas pelo poder do que centrados no que realmente importa, que é a educação religiosa do grupo e crescimento dos membros da comunidade. E, nestas disputas, não se leva em conta a sobrevivência da própria Casa como instituição de amparo aos filhos; não se leva em conta nada, somente a obtenção do poder a qualquer custo ou a manutenção dele.

Como disse anteriormente, há também os que rejeitam o poder. Estes não contribuem em nada e se colocam à margem das disputas, mas também não se posicionam contrários a estas. São como já li em um grande livro “Ogãns de bênção”, referindo-se às pessoas sem compromisso com a Casa. Não falo aqui especificamente dos Ogãns, não há nenhum preconceito, refiro-me à generalidade dos cargos e do status que eles proporcionam na comunidade, sem, no entanto se envolver profundamente com seus assuntos. Talvez seja mais adequado chamar este grupo de “Irmãos de benção”. Limita-se a trocas de bênçãos.

Claro exemplo de dominação pelo medo se dá em uma consulta de búzios ou a uma Entidade, onde o objetivo principal é a busca de soluções e respostas para um determinado assunto e essa consulta pode acabar impondo ao consulente uma série de outros assuntos que não lhe são pertinentes, mas que podem dar status de grande adivinho ao zelador. Portanto, uma grande possibilidade de manipular e dominar as pessoas. As vezes até pelo medo.

E esse é somente um item de um grande arsenal de formas usadas para impor o medo.

O objetivo de um jogo ou uma consulta é interpretar os ditames dos Orixás e a partir disso indicar e orientar se o consulente precisa fazer ou deixar de fazer algo, assumir uma determinada atitude ou se libertar de certas atitudes para assim alcançar o seu equilíbrio. É nesse ponto que começamos a diferir o poder de fato do poder imposto. Afinal, amedrontar uma pessoa se utilizando de um jogo ou de uma Entidade para obter vantagens é coisa fácil, o difícil é encontrar pessoas que queiram orientar e cuidar, dar carinho e uma palavra de conforto. Como disse, é difícil encontrá-los, mas graças aos Orixás pessoas sérias também ocorrem em grande número, pois afinal é para isso que são graduados e ocupam seus cargos.

O objetivo deste texto é dizer que o poder deve ser utilizado para colaborar, para influenciar positivamente, para fazer crescer a comunidade e os filhos, portanto, devemos antes de nos entregar de corpo e alma a um líder religioso, avaliar cuidadosamente que tipo de poder queremos exercer e a que tipo de poder estaremos sujeitos.

A busca constante da felicidade conduz à felicidade.

Não sei de quem é a frase, mas é bem interessante.

Tomeje. Dezembro de 2011.