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A benção meu egbomi.

A benção meu egbomi..

Foi durante uma conversa com um Yaô que eu percebi o quanto nossa gente está desamparada e o quanto alguns zeladores se omitem diante de questões do cotidiano religioso de suas casas e dos seus filhos de axé. Por isso decido escrever.

Mas se tem coisa que gosto de fazer é conversar com Yaô e Abiã, desvirtuo todos, no melhor sentido que esta palavra “desvirtuar” pode oferecer ao crescimento da pessoa. Certas “virtudes” muitas vezes só servem para criar pessoas sem o gosto por perguntar e questionar, ou melhor, questionar-se. Por isso acho que sou meio subversivo para essas questões de educação, gosto de questionamentos.

Durante essa conversa com um Yaô eu fiz várias perguntas, coisas do tipo: Como está a casa onde você mora? Os móveis te agradam, as cores das paredes estão de acordo com seu gosto? E sobre sua vida pessoal? Você é feliz com seu parceiro? Voce está realizado na sua profissão? Está estudando no momento? O Yaô me olhou como se estivesse diante de um louco, e me perguntou por que eu estava lhe fazendo aquelas perguntas, afinal ele estava ali para ser iniciado e estas perguntas não faziam parte de uma iniciação e muito menos faziam parte da educação religiosa? Minha resposta foi. Se você não está completo em algum destes itens, por favor, levante-se e vá resolver, não fique aqui pensando que religião vai resolver para você o que de fato é problema seu. A religião pode te ajudar indicando o caminho, e até uma boa limpeza e equilíbrio espiritual podem te fazer um grande bem, mas da sua vida quem cuida é você.

Vejo que muitas pessoas procuram uma tecla em sua vida chamada “control facilidade” ou “shifit tudo pronto” isso não existe, não há passes de mágica na vida, a vida é real, dura e difícil para quem não deseja lutar por seus objetivos. Muitas pessoas procuram o Candomblé com a sensação de que dentro de uma Casa de Orixá ela vai encontrar solução para o problema que ela própria criou em sua vida, que a solução é simplesmente fazer um ebó ou uma oferenda. Esses ainda não entenderam que precisam de esforço e de trabalho para conseguir o que desejam. Os Orixás ajudam, isto é certo, mas sem sua própria colaboração sua vida pára, tudo acaba, fica sem cor. E em inúmeras vezes acabam vítimas de pessoas menos habilitadas que se aproveitam de sua fraqueza. Neste ponto começa meu questionamento e sempre pergunto ao Yaô. Devemos viver “Para o Candomblé”, “De Candomblé” ou “O Candomble”?. Cada uma destas perguntas leva a pensamentos diferentes e visões de mundo diferentes.

As questões abaixo, são d eminha inteira responsabilidade e são apenas as minhas visões de mundo. Não sou nem quero ser ditador de normas, apenas exponho minhas idéias, meu modo de pensar a religião.

Viver para o Candomblé – A pessoa tem a vida resumida a religião, pensa e vive a religião, se dedica ao culto como se isso fosse sua tábua de salvação, geralmente acabam cobrando dos outros a mesma dedicação ou submissão que eles tem com a religião, se tornam na maioria das vezes pequenos tiranos, impondo suas normas e desejos. O fazem não por consciência, mas por acharem que essa é a única forma de viver na religião, dedicação exclusiva e integral. Geralmente tem problemas com os membros da comunidade que tem uma vida fora da religião com filhos, companheiros, trabalho, estudos, enfim, uma vida social.

Viver de Candomblé – Qualquer mercador seja ele comerciante ou “Zelador mercantilista” pode viver de Candomblé desde que tenham como finalidade única o ganho financeiro nesta relação. (A diferença é que mercador/lojista tem uma finalidade clara e necessária, vender mercadorias, já o “Zelador mercantilista” nem sempre). Nestes casos os desavisados que procuram a tal tecla “control facilidade” devem ter muito cuidado, pois são alvos fáceis para o mercador de ilusões. E são banhos, Boris e oferendas de todo tipo, quase sempre dispendiosas e desnecessárias. O “Zelador mercantilista” é um tipo que tem se proliferado e causado danos a religião, que na sua maioria é formada por pessoas honradas e de bom coração. Viver De Candomblé, é possível e muitas vezes necessário ao desempenho de tantas funções que demandam a presença constante do Zelador na Casa de Orixá, porém com respeito a religião e as pessoas.

Viver o Candomblé – Nesta lista estão as pessoas que conseguem diferenciar o Candomblé das suas obrigações diárias, das suas necessidades financeiras e de tudo mais que faz parte das necessidades da pessoa. Não utilizam a religião para ganhos pessoais e não fazem ebós e oferendas desnecessárias. Estes encontraram o caminho do equilíbrio e vivem de acordo com os preceitos básicos do Candomblé. Isto não é fácil, o aprendizado é longo e diário e é um grande compromisso com a vida religiosa.

Aos Yaôs com os quais tive a honra de conversar eu fiz meu alerta e cabe a eles encontrarem seus caminhos, que podem não ser nenhum dos que citei, afinal são minhas idéias e minhas visões de mundo, que são diferentes das suas que está me lendo, avaliando minhas visões de mundo e criticando bem ou mau, concordando ou não.

Mas o que peço aos mais velhos de nossa Religião é que mostrem aos mais novos de suas Casas as suas visões de mundo e suas idéias, os valores do Candomblé e a hierarquia, as regras e principalmente os orientem, conversem com seus irmãos, os protejam. Façam sua parte de mais velho.

Axé à todos. Tomeje.

COSMOGONIA YORUBÁ: A CRIAÇÃO E A SEPARAÇÃO DO MUNDO

  1. COSMOGONIA YORUBÁ: A CRIAÇÃO E A SEPARAÇÃO DO MUNDO

Como em toda cultura, os yorubás também têm sua teoria sobre a criação do mundo, dos seres e da atuação das divindades neste episódio.

O grande Deus da criação é Olodumare (Olódùnmarè), ou Olorun (Olóòrun – Senhor do Céu). Olorun é o Deus supremo, que age acima dos demais Orixás. Por essa razão, inclusive, o Candomblé é uma Religião monoteísta (acredita em um Deus único).

No momento anterior à criação, tudo que existia era uma massa de ar infinita. Tal massa era o próprio Olorun.

Além do próprio Olorun, só existiam os Orixás primordiais antes da criação do mundo. Estes eram os Orixás do branco (òrisa-funfun),. Essas divindades ocupavam o àwosùn dàra (a morada de Olorun, ou a morada do justo).

O momento mágico de início do nosso mundo e da existência de todos os habitantes é descortinado pelo Odù Ifá Òtúrúpòn-Òwónrín, através de um maravilhoso mito, o Ìtàn ìgbà-ndá àiyé

Ao mover-se lentamente e ao respirar, Olorun deu origem à água. Da relação entre a água e o ar, criou Orixanlá (Òrìsànlá), ou (Òsàlá) o Grande Deus Branco, conhecido também pelo nome de Obatalá (Obàtálà).

No movimento constante de água e ar, parte desta matéria solidifica-se dando origem a um monte de terra avermelhada, a qual Olorun soprou se hálito (èmí) e também o ar divino (òfurufú) para que nascesse Exu Iangui (Èsú Yangí), a primeira forma viva e individualizada do universo.

Da relação entre o ar e a terra, passa a existir Odudua (Odùduwà) (*1).

(*1) Em uma tradução livre, seu nome significaria “a cabaça de onde jorrou vida”. Odududa é frequentemente confundida com o guerreiro mítico divinizado e de mesmo nome, fundador da cidade de Ilê Ifé. A personalidade de Odudua é controvertida. O Padre Boudin, classifica essa divindade como feminina, constituindo assim o par da gênese com Oxalá. Verger discorda, acreditando que a parceira de Oxalá seja Iyemowo.

Olorun decide então criar o mundo para os novos seres. Para tal, convocou Oxalá e a ele entregou o saco da existência (àpò-iwà).

O Deus Supremo, conhecendo todas as coisas, advertiu Oxalá, seu primogênito, a procurar Orunmilá (O Senhor da Sabedoria e do Destino) a fim de que este lhe desse as orientações para obter êxito na incumbência.

Oxalá seguiu o conselho e foi até Orunmilá, o grande oluwò. Este consultou o rosário de Ifá e apareceu Ejiogbe, o primeiro dos 16 odus. Orunmilá então disse que Oxalá teria muitas dificuldades e que estaria sendo testado por Olorun. Recomendou que antes de partir, Oxalá fizesse uma oferenda a Exu contendo uma corrente de dois mil elos, 5 galinhas de cinco dedos em cada pé, cinco pombos e um camaleão. Advertiu-o também a não ingerir bebida alcoólica até a conclusão do trabalho.

Oxalá, no entanto, movido por sua vaidade e prepotência, contestou Oruminlá. Questionou o diagnóstico do sábio, alegando que ele (Oxalá) seria mais importante e mais velho que Exu, razão pela qual se Exu quisesse algo, que fosse atrás de Oxalá na missão.

Oxalá foi teimoso, pois esqueceu que Orunmilá não se equivoca. Foi prepotente, por pensar ser mais importante que Exu. Foi arrogante por esperar que Orunmilá devesse explicações do destino a qualquer um. Deveria saber que ninguém pode ver o rosto de Oruminlá, assim como não pode conhecer a razões do destino.

Oxalá foi também negligente. Desdenhou da predição e partiu no cumprimento da missão, sem atender as predições.

No percurso, deparou-se com Odudua e a convida para a empreitada. Contudo, Odudua recusa-se a acompanhar Oxalá, pois este não teria cumprido as recomendações do oráculo, nem tampouco realizado as obrigações rituais necessárias à tarefa.

Teimoso, Oxalá não deu ouvidos a Odudua e seguiu sozinho, até encontrar Exu na via (òna-òrun). Este, já empossado como olonan (senhor dos caminhos), perguntou a Oxalá se o orixá branco havia feito as oferendas para a jornada. Oxalá, esbanjando superioridade, não deu atenção a Exu; reuniu os Orixás que lhe auxiliariam na tarefa (Olúfón, Eteko, Olúorogbo, Olúwofin, Ògiyán e os demais Orixás funfun) e seguiu adiante.

Irado, Exu resolve se vingar de Oxalá.

Oxalá, ao longo da viagem, desacostumado naquele ambiente inóspito, sentiu muita sede. Parou ao pé de uma palmeira de dendê (igí-òpe), e fincou seu cajado (òpásórò) no tronco para sorver a seiva refrescante, o chamado vinho de palma (emun). Porém, como a bebida é fermentada, possui alto teor alcoólico e Oxalá acabou adormecendo.

Os Orixás que acompanhavam Oxalá ficaram atônitos, pois não conseguiam acordar o líder.

Exu então pegou o saco da criação e o levou de volta às mãos de Olorun, atestando a falha de Oxalá.

Olorun chamou Odudua deu-lhe uma pequena cabaça contendo terra e pediu que esta fosse realizar a incumbência antes conferida a Oxalá, que havia falhado na missão.

O Deus Supremo mostrou a Odudua o lugar determinado para a criação do mundo (òrun àkàxò).

Mais prudente, antes de iniciar sua marcha, Odudua foi a Orunmilá. O Senhor da Sabedoria consultou Ifá e viu Oyeku Meji, o segundo Odu no sistema de Ifá, que é a contra-parte de Ejiobe (o 1º signo).

Orunmilá orientou Odudua a fazer o mesmo ebó antes prescrito a Oxalá.

Odudua atendeu e ofereceu a Exu a cadeia de dois mil elos, as cinco galinhas de cinco dedos, os cinco pombos e o camaleão.

Exu, mostrando a generosidade que tem com aqueles que lhe respeitam, retirou um elo da corrente e o pôs no braço (de onde jamais retiraria para mostrar sua ligação com a gênese). Devolveu a Odudua o restante da corrente e ainda 1 galinha, 1 pombo e o camaleão, avisando-lhe que tais materiais seriam muito úteis à criação do mundo.

E Odudua partiu na expedição. Chegando diante do pilar que une o orun ao aiye (òpó-órun-oún-àiyé), lançou a cadeia de dois mil elos e desceu até o ponto exato da criação do mundo (òrun àkàxò). Em seguida, ainda pendurada, jogou a terra e mandou que a galinha de cinco dedos a espalhasse; determinou que o pombo a semeasse e fez com que o camaleão, com sua prudência, colocasse pé ante pé e fosse verificar se a terra estava segura e firme. Aí sim Odudua pisou no mundo. Sua primeira pegada é chamada de esè ntaiyé Odùduà.

Odudua fundou desta forma a cidade de Ilé-Ifè, o berço da civilização yorubá, que se espalhou para o resto do mundo.

Só depois disso Oxalá despertou. Olorun delegou a ele a tarefa de criar os seres vivos. E Oxalá criou os homens, as mulheres, as árvores, os peixes e tudo que habita a Terra.

Mas entre Oxalá e Odudua surgiu uma rixa. Olorun, com sua sabedoria, fez mostrar que os dois eram de fundamental importância para a Criação e a sobrevivência do mundo dependeria da harmonia de ambos.

Olorun os convenceu assim a celebrar um acordo (Odù Ifá Ìwòrì-Òbèrè) e chamou Oxalá para sentar à sua direita (òtun) e Odudua para sentar-se à sua esquerda (òsì). Instituiu assim a possibilidade de equilíbrio e de convivência harmônica entre homem e mulher.

Até hoje os yorubás comemoram o dia do acordo através de uma grande festejo anual (ododún sise), celebrando a união que permitiu a sobrevivência do universo e da vida.

Toda esta epopéia durou apenas quatro dias. Para representar a gênese e o útero primordial, os yorubás utilizaram o igbá-odù (ou igbádù): uma cabaça pintada de branco, cortada horizontalmente ao meio em duas metades que devem manter-se sempre unidas, contendo em seu interior quatro pequenos recipientes de casca da noz do côco cortado ao meio contendo, cada qual, com um elemento que simboliza os três sangues do axé: o efun (branco), o osún (vermelho), o carvão (preto) e ainda lama (matéria-prima do homem). Esses elementos significam também os quatro odus principais: Eji Ogbé, Òyèkún Meji, Ibara Meji e Edí Meji. Separar as duas metades de igbadu, significa a própria destruição do mundo.

A parte de cima de igbadu representa Oxalá, e a parte de baixo, Odudua.

Nesta época, o orun (òrun), o céu, não era separado do aiyê (àiyé), o mundo, e homens e deuses transitavam livremente entre os dois mundos.

Havia um camponês que morava exatamente no limite entre o orun e o aiye. A mulher dele era estéril. Este homem rogou muito a Oxalá que a mulher dele pudesse parir. Oxalá o atendeu e a mulher do camponês deu a luz a um menino. Contudo, Oxalá decretou como interdito que aquele menino jamais deveria ultrapassar os limites da terra, nunca podendo ir ao orun.

O camponês ensinou a proibição ao menino e tomava todos os cuidados para que o garoto nunca conhecesse o caminho que ligava os dois mundos.

Mas a curiosidade e a rebeldia foram maiores. Certo dia, o pai teria que entregar umas sementes no orun. Encheu um saco, o pôs nas costas e começou a trajetória. O menino esperto fez um pequeno furo no saco de sementes e assim ficou conhecendo o caminho do orun ao aiye.

No dia seguinte, seguiu o rastro e chegou ao orun. Não só descumpriu o interdito, como desafiou os deuses, se dizendo mais esperto e contando vantagem.

Oxalá ficou irado, pegou seu cajado e naquele momento separou o orun do aiye. Limitou assim o espaço dos homens e dos deuses, impondo uma nova ordem e uma nova relação entre homens e as divindades.

Entre o orun e aiye formou-se um vão, que foi preenchido pelo sopro de Olorun, dando origem à atmosfera (sánmò). Este vão possui nove espaços, sendo quatro superiores () e quatro inferiores (òrun isalè mérèèrin), postando-se a Terra no espaço central.

O menino transgressor chamava-se Exu. Exu foi aquele capaz de criar o caos e recriar a ordem universal.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br)

 

Brasil mostra tua cara!

Brasil mostra tua cara!

A mídia muitas vezes em certa medida discriminatória com relação ao discurso e sincretismo das religiões de matriz africana são frequentemente medidos e registrados como “culto ao maligno” e “malandragem” que enfraquece a perspectiva filosófica da religião que é o encontro da Matriz Africana com a Brasileira, infelizmente cenas de novelas, filmes, literatura e produtos televisivos que trazem superficialidades em seu discurso e que, portanto, corroboram com um imaginário de preconceito. Em comparação com outros aspectos da cultura negra e que nasceram juntas dentro da senzala, como as músicas e a culinária temperada com traços africanos, a religião ainda habita em algum espaço obscuro na sociedade, não atingindo camadas onde outras expressões já conseguiram atingir.

A ilusão de que não existe mais nenhum tipo de racismo no Brasil é facilmente desmascarada com o mundo capitalista que vivemos. A falsa hegemonia do samba, que chega a ascensão depois de criminalizado e da culinária, grande sensação no mundo pelos temperos brasileiros, mascarou uma posição vivida no país. Posição essa que usa de apropriação das culturas minoritárias, tomando sua voz e seus modos de expressarem para que haja a maior possibilidade de retirar, desta minoria, a exaltações de seus resultados positivos que receberiam naturalmente com objetivos alcançados. A retirada da voz das minorias é histórica vinda da falsa superioridade branca e apagar outros traços culturais acabou se tornando a forma cruel de imposição de seus pensamentos. A escravidão, a imposição de sua religião, as teorias racistas do século XIX, são exemplos que nos mostram que nunca se pensou de forma humanitária nas minorias em território tupiniquim e o resultado de tal condução é encontramos do povo negro na base da pirâmide estrutural, com os menores índices educacionais e ocupando as maiores parcelas da pobreza. Se desde o começo não se respeitou a cultura de cada povo, não seria diferente agora. Dar voz ao povo negro seria ascender a camada mais pobre para evidência, e isso nunca foi permitido no Brasil. Assim, tomar do menor tudo aquilo que possa ser lucrativo, mascarado de um falso espaço, foi a forma encontrada para que a elite branca continue se perpetuando.

A falta desconhecimento da história também é uma forma de esconder de onde nasce cada história. As políticas de embranquecimento da pele no Brasil do século XIX também serviu para apagar a memória de toda contribuição dos negros. É comum vermos pessoas exclamando surpresas com o sofrimento dos escravizados ao verem romances na televisão, como telenovelas. Não retratam a verdadeira barbárie sofrida por esse povo. Logo, é fácil a quem interessa, dizer que a “brasilidade” venceu. A diversidade, o plural, o povo que mais se misturou, que construiu com o país com trabalho de mãos calejadas, a ele pertence toda a cultura. O samba veio da África. Alimentos como a banana e a mandioca foram trazidos da África para que os negros se adaptassem melhor ao país. E isso não é ensinado na escola básica. Não são mostradas as principais contribuições culturais do povo negro, indígena e o caminho é aberto e livre para a apropriação de pontos que possam ser interessantes a elite intelectual.

Vale ressaltar que Lélia Gonzalez é das vozes que desconstrói mito da democracia racial, denunciando o sistema escravista-patriarcal brasileiro que não se constituiu sobre base harmônicas, mas por meio da violência racial e sexual que reproduz desde a colonização na sociedade brasileira. Décadas depois Sueli Carneiro fala do “estupro colonial “da mulher negra pelo homem branco como bases para a fundação do falso mito da cordialidade e da democracia racial brasileira.

Eliz França

OS QUATRO ELEMENTOS: O MUNDO EM QUATRO PARTES

OS QUATRO ELEMENTOS: O MUNDO EM QUATRO PARTES

Os yorubás concebem o mundo por uma quadríade, esta composta sempre por dois pares.

A vida só é possível a partir da união dos pares: homem/mulher, dia/noite.

Quatro gomos (dois pares unidos) constituem o obi abata (fruto sagrado dos Orixás). Também quatro as fases da lua, os elementos da natureza e os pontos cardeias (Ìlà-òrùn – O Leste, Ìwò-òrùn – O Oeste, Àrìwà – O Norte e Gúúsù – O Sul) .

Os principais odu, são em quatro: Odù Agba – Ogbè Méjì – Òyèkù Méjì – Ìwòri Méjì – Òdi Méjì. que representam os quatro elementos que formaram o mundo, terra, ar, água e fogo. O mundo foi criado em 4 dias, conforme o mito yorubá.

Os deuses primordiais à gênese também são em número de quatro: Olorun, Obatalá, Odudua e Exu.

O número dos odus básicos é 16, que é o resultado de dois pares multiplicados (4 X 4).

Foi da relação entre os elementos que surgiram os deuses primordiais.

Em nosso ser, guardamos fragmentos dos quatro elementos: água, ar, fogo e terra.

A água está presente em cerca de 80% do corpo humano, bem assim em todos os nossos alimentos, como as verduras, os animais e as frutas.

Este elemento representa a vida, a própria fecundidade. Por isso concentra em si a energia feminina.

A terra é a fertilidade. É também um elemento feminino. A terra significa a fonte de onde os seres encontram sustento e o alimento. Nela o homem se estabelece e pode exercer seu destino. No corpo humano, a terra é expressada pelos ossos.

O fogo sempre existiu e sempre esteve presente em torno do homem, na lava, nos raios do sol, nas descargas elétricas naturais. Só que este elemento teve que ser descoberto. Neste momento, surgiu o poder. Quem dominava o fogo passava a exercer poder sobre o outro. Poder de criar, de transformar e de destruir. Lidar com o fogo é sempre ambíguo: ele pode agregar (em torno dele as pessoas se reúnem e se constituíram as primeiras sociedades), mas ele também é perigoso e poder ferir (é o elemento das guerras e da violência).

O fogo está no corpo humano através das descargas elétricas cerebrais provocadas pelos neurônios e elétrons. Por isso é associado à chama dos pensamentos, o forno de idéias. Ele é o maior símbolo da consciência e do livre arbítrio. Saber utilizar o fogo com sabedoria pode significar progresso, ou destruição. O fogo é um elemento masculino.

O quarto elemento é o ar. Do sopro da vida surgiu o primeiro ser individual, Exu Iangui.

O ar é também um elemento masculino. É o símbolo da divindade. Assim como Olorun, ninguém o vê, nem o toca, nem o prova; mas todos sentem sua presença em si, quando enchem o pulmão. Olorun e o ar estão sempre em nós percebamos ou não, queiramos ou não.

Por ser etéreo, só os mais sensíveis e sábios conseguem senti-lo e valorizá-lo. Quase imperceptível, o ar é não menos poderoso que os outros elementos e também vital para a existência dos seres.

Os Orixás possuem energias ligadas aos elementos da natureza. Vejamos aqueles cultuados no Brasil: Nanã Buruku, Iemanjá, Oxum, Ewá, Oyá, Oxumarê e Obá, são divindades ligadas ao elemento água.

Ogun, Oxossi, Iroko, Ossãe e Logun, são associados ao elemento terra.

Ao fogo, integram-se Xangô e Exu.

Ao elemento ar, estão coligados Oxalá, Tempo e Oxaguiã.

Todos os quatro elementos da natureza estão em nós e em torno de nós. Eles são indissociáveis e fundamentais à vida.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori

Só pra confirmar que vocês sabem.

Vocês sabem que candomblé não é carnaval.

Não é boate.

Não é desfile de fantasias de carnaval.

Não é botequim.

Vocês sabem que candomblé não é MMA

Não é quadra de escola de samba.

Não é parque de diversão.

Não é onibus.

Não é ……… Não é, mesmo.

Tomeje, março de 2022.

Confetes, serpentinas e Orixas.

Sendo coerente com meu texto anterior . Kkkkkkkkkk

Só não lembro qual é o texto anterior. Kkkkkk

Certa vez eu vi na TV uma fantasia da Portela ( minha amada Portela) em homenagem à Ogum. Até aí tudo bem. É uma forma da agremiação carnavalesca apresentar seu entendimento desse Orixá.

Vou tentar descrever, com isenção. Tinha um capacete imenso com plumas, uma espada prateada reluzente . Tinha também bota de cano alto. Um adorno de escudo no peito. E a grande novidade que deixou o mercadão de madureira sem chão e que vai bombar este ano. Foi o imenso resplendor verde em forma de raios de sol…. Enquanto fantasia estava muito bonito.

Mas estou tentando achar um nome adequado para os espaços que abrigam uma reunião de pessoas que tocam instrumentos musicais de percussão, dançam em roda e cantam músicas em li águas nativas africanas e se apresentam com roupas fartas de adereços,  pinturas,  cabelos e panos coloridos e etc.  E esses espaços se definem como religiosos.

Ainda não lembrei o nome desses espaços.

Nesses espaços tem também uma coreografia de dança ” livremente inspirado” por exemplo nas danças do orixá Ogum ou Ota. E outros.

É a moda carnaval fazendo história nos lugares acima citados mas que  ainda não sei como lhes definir.

Mas que a fantasia descrita acima vai virar a sensação destes lugares não tenho duvida.

Que lindo.

Tomeje, 2019.

A Casa de Santo

A CASA DE SANTO:

O espaço geográfico onde se situa o Templo de Candomblé (ilè àse), como tudo nessa Religião, é ímpar.

Curiosamente, apesar da diversidade de cultos oriundos de diferentes regiões africanas; apesar das peculiaridades rituais e culturais; apesar dos vários nomes pelos quais esse espaço é reconhecido (Ilê, Barracão, Roça, Casa de Santo, ou Terreiro), e independentemente da origem da liturgia ali praticada (Nação), a dinâmica que se oferece aos adeptos e visitantes que entram naquele espaço é invariavelmente a mesma: trata-se de um mundo a parte.

Ao atravessarmos as fronteiras desse reduto de Fé e resistência cultural, ingressamos em outra dimensão. Ali, o tempo passa em outro compasso. As relações de hierarquia social são completamente diferentes daquelas existentes na vida profana.

Basta um passo para dentro do Terreiro, e as regras de convivência são outras. Não que as leis brasileiras percam sua eficácia. Mas as normas de conduta e o sistema de poder dentro do Ilê, são únicos e prevalecem a tudo e a todos.

Por exemplo: se na vida exterior um adepto for uma autoridade pública, mas dentro daquela Roça sua condição hierárquica for de um Abiãn (não iniciado), ele será subordinado a qualquer pessoa, instruída, ou não, mais velha, ou não. Sua condição de autoridade não vale naquela comunidade (ou egbé).

A idade cronológica não conta. A cultura exterior não conta. Os valores materiais não contam. Ali outros valores prevalecem.

Em suma, o espaço mítico dos Terreiros funciona como um verdadeiro Vaticano: um território encravado dentro de um país, com regras, valores, e hierarquia próprias. Ali existe outro “Chefe de Estado”.

Talvez por isso haja certa dificuldade para as pessoas que não estão preparadas para isso, se adaptarem à dinâmica de uma Casa de Santo.

Vale dizer que existem catalogados mais de 90 (noventa) cargos hierárquicos dentro da liturgia do Candomblé. Há desde os administrativos internos, aos ritualísticos e também aqueles voltados para as relações diplomáticas externas que devem ser mantidas com outros Barracões.

A convivência é balizada pela senioridade dos iniciados na Religião. Portanto, quanto mais anos de iniciação possua o adepto, maior sua condição hierárquica naquela comunidade, assim como maiores serão suas regalias naquele egbé.

Dentro da Casa de Santo existem espaços sagrados e também aqueles destinados às festas de caráter mais informal e não litúrgicas.

Os quartos de Santo são os locais onde são guardados os assentamentos dos Orixás. Ali, repousam nas louças e ferramentas de cada Divindade, sua energia, seu a Axé e a fé de seus seguidores. Esses locais são restritos aos freqüentadores da Casa. Mas o direito de manusear essas preciosidades sacras cabe apenas aos iniciados mais velhos e aqueles de maior confiança.

Os quartos de Santo são saudados sempre, um a um, por cada adepto que entra na Roça.

Na sala, ou salão (local onde são realizadas as cerimônias públicas), existem 3 pontos especiais: a porta de entrada, a cumeeira e os atabaques. Esses três locais também são saudados pelos visitantes de outros Terreiros. Até mesmo os Orixás manifestados prestigiam esses três locais, que representam, respectivamente, os caminhos, o axé daquela Casa e a orquestra ritual que chama e louva as Divindades.

Outro espaço sagrado é o roncó. Este é o quarto privativo e exclusivamente separado para os rituais de iniciação e também para os ritos que são realizadas quando completados os ciclos posteriores à iniciação (obrigações de tempo de santo) de cada adepto.

Tradicionalmente, nos locais sagrados não se fuma, não se bebe, não se adentra sem que antes se tome um banho de ervas para retirar as energias negativas e também se vistam as roupas rituais.

Mas há sempre redutos mais afastados que podem ser utilizados para que nos momentos descontraídos das festas, os freqüentadores desfrutem das bebidas, das brincadeiras e do samba de roda, tradição secular.

As Casas de Sato reproduzem as côrtes africanas, onde o rei é o babalorixá, ou a iyalorixá, com a soberania, a autoridade e o poder absoluto e vitalício, concentrando as figuras de chefe de estado e líder religioso. Em torno dessa figura, circula um protocolo todo especial: como reverenciá-lo; quem pode sentar-se a seu redor durante as refeições; as cores das roupas e dos colares que a comunidade deve usar; os tabus e interditos decretados por eles e que deverão ser respeitados por todos, etc.

Sua corte é composta pelos integrantes da comunidade (ègbé) que ocupam os cargos mais importantes. Estes podem ser seus parentes consangüíneos, ou não. Porém, não raro, a composição se dá em uma espécie de castas, onde se pode observar que certas famílias se destacam por seus membros preencherem posições relevantes na hierarquia e no controle da Casa.

Os membros de um ègbé, ao ingressarem na Casa, passam a ser parte de uma comunidade especial. Verdadeiras moléculas componentes da célula mater. Despir-se de individualismo dentro da Casa de Santo, é compreender e facilitar o equilíbrio do conjunto. Com isso, perde sentido a vaidade, o egoísmo e as as disputas pessoais que corrompem a sociedade. Na Casa de Santo, a importância que se exerce, é ser parte do todo.

A Casa de Santo, enfim, é uma ilha de fé, de tradição e de cultura. Seu espaço físico e astral é compartilhado por seres vivos e divindades imateriais, que se misturam em uma poesia singular.

Naquele reduto, passado, presente e futuro se integram de uma forma quase imperceptível. De um modo único, inexplicável, como só uma Religião paradoxal e apaixonante como o Candomblé pode conceber.

A Casa de Santo é o Templo que abarca a crença, os costumes, as diferenças, o negro, o branco, o homem a mulher, o velho, a criança, o rico, o pobre, o homo e o hetero, acolhendo a todos com a sabedoria milenar e infalível do africano. Sabedoria de escravo, que conquistou o senhor. Sabedoria simples e profunda, que se pode resumir em quatro pilares: respeito, solidariedade, perseverança e axé.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br)

Intolerância assunto de interesse público!p

Intolerância assunto de interesse público!

A religião é um dos princípios instrumentos na formação do mundo cultural e a sua magnitude em representar identidades culturais. Mostrar que a religiosidade se torna significativa de acordo com o indivíduo e suas realidades de cada pessoa podendo ou não estabelecer vínculos de fé que potencializam vivências humanas, satisfazendo necessidades existentes.

A intolerância pode ser revelada com a violência física ou simbólica. Podem ser analisadas por meios midiáticos mais empregados na disseminação da agressividade
Os conflitos religiosos prejudiciais têm ocorrido cotidianamente, ao longo de séculos, em diferentes locais do Brasil e do mundo.

Muitos acontecimentos provocaram discussões acirradas, pelas manifestações sociais, por lideranças religiosas e por diversos  grupos. Tudo repercute para a identificação dos acontecimentos que promove a intolerância, visando a superação, para a propagação do respeitar de cada credo

A única forma possível de intolerante aceitar a tolerância não seria pela insistência e nem pela opressão, mas pelo reconhecimento de seu direito de expressar-se e percebe-se, que o desenvolvimento da tolerância foi sendo gradativamente construído  através de ideias
desenvolvidos por pensadores como Voltarire, Bobbio, Stuart Mill, Marcia Benke , Ronilson Pacheco e  Marcio de Jagun entre outros , em cada respectiva época. Esses autores desenvolveram estudos que demostram a importância da tolerância para a humanidade, em um mundo marcado por intolerância de diversas formas, notoriamente, a religião.

Eliz França

MONOTEÍSTA OU POLITEISTA?

  1. V OU POLITEISTA?

Monoteísmo é palavra derivada do grego. Monos, quer dizer único e Théos, deus. Portanto uma religião monoteísta teria a crença em um único deus.

Já o politeísmo, conceito também oriundo do grego, pressupõe o culto a vários deuses.

Segundo o conceito judaico-cristão, o deus único é onipresente, onipotente e onisciente, enquanto as religiões politeístas são consideradas pagãs.

Embora o Candomblé em seu rito louve inúmeras divindades, as quais reconhece como regentes da natureza, das emoções e sentimentos, ele se fundamenta na estrutura de um Deus Supremo: Olodumare (Olódùmarè).

Olodumare teria criado o universo através de seu próprio desdobramento quântico, assim como criou os primeiros Orixás e Eborás. Em uma espécie de gênese de Si mesmo.

A natureza ímpar de Olodunmare é assim revelada em um itan:

“Eo mó Iya”

K’enyin o ma tun sure puró mó;

Eo mo Baba

K’enyin o ma tun sure s’eke mó;

Eo mó Iya, eo mó Baba

OLODUNMARE

Eyi l’o d’IFA fun Tela-iriko

T’o só wipe on nre ‘ki

OLODUNMARE…”

“Você não conhece a Mãe”.

Pare com sua impetuosa mentira;

Você não conhece o Pai

Pare com sua impetuosa mentira;

Você não conhece a Mãe, você não conhece o Pai de OLODUNMARE

Com base no dito provérbio de Ifá acima, Tela-Iroko propôs o nome de Olodumare: “O Senhor de Todas as Coisas”, ou e uma tradução livre: “Eu sou Aquele que é” . Também é conhecido como Olofin (O Supremo Sobre todos Nós), ou Olorun (O Senhor do Céu).

O Deus Supremo do Candomblé é um espírito perfeito e infinito.

Olodumare criou nosso Planeta e o Universo, e incumbiu Obatalá de criar os seres.

O Povo yoruba reconhecia a existência de um Deus Supremo, uma inteligência superior a influenciar no mundo e em nossas existências. Uma força capaz de ordenar o cosmo para que haja ordem e não o caos.

Os nagôs acreditavam que a Criação não foi um mero acaso, mas que havia uma espécie de impulso superior promovendo as coisas: a força e a vontade do Ente Superior, Olodumare.

Os Orixás entram no contexto não como similares, nem como equiparados a Olodumare, mas como forças auxiliares, responsáveis pelo equilíbrio de parte da Criação: os elementos da natureza, as emoções e sentimentos humanos.

O surgimento dos Orixás guarda certas semelhanças como a origem dos santos e deuses de outras religiões. São também ancestres, que se destacaram por grandes feitos, qualidades ou virtudes, tornando-se verdadeiros mitos inesquecíveis e cultuáveis.

Guardadas as devidas proporções, o Catolicismo que crê em um Deus único, mas reverencia e cultua os Santos, que apadrinham certas virtudes e necessidades, ajudando os Homens em suas aflições.

A mesma dinâmica se repete no Hinduísmo (que mesmo crendo na unicidade de Brahma, estende seu ritual às chamadas divindades menores.

Também o Islamismo (que apesar da supremacia de Alá), se devota aos chamados homens-santos.

Toda a Humanidade sempre reconheceu e até mesmo precisou de intermediários entre os Seres e o Supremo, tenha Ele o nome que tiver.

Por toda a África o conceito de deus único é o mesmo. Variam somente seus títulos e lendas, conforme a cultura de cada povo.

Para os Bantu, é Zambi ou Zambiapongo. Para os Fon, é Mawu e assim por diante.

A classificação das religiões como politeístas, ou monoteístas, era fruto de um preconceito de origem judaico-cristã. Em determinada época, servia como um indicador do “atraso” espiritual e intelectual daqueles que cultuassem os deuses não reconhecidos pela Igreja Católica.

A riqueza do Candomblé e dos Cultos de Matrizes Africanas não precisa ser considerada como poli ou monoteísta para crescer em similaridade com nenhuma religião, a fim de ser melhor reconhecido.

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br)

Respeite o meu terreiro.

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