Ritual e sacrifício, por Mãe Stella de Oxossi

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Ritual e sacrifício

Já foram feitas observações sobre cosmogonia – origem do mundo segundo o povo yorubá; liturgia – cerimônias abertas ao público; dogmas – verdades reveladas pelos orixás, que são aceitas usando-se o critério da fé. Hoje o tema é ritual: cerimônias que se baseiam em mitos que foram sendo transmitidos pelos ancestrais. Nos rituais revivemos passagens importantes dos orixás aqui na Terra e, assim, conectamo-nos com o comportamento deles. Os rituais, através dos mitos, ensinam para nós os comportamentos que devem ser seguidos e os que devem ser evitados. Muitos desses rituais são repetidos em épocas específicas, pois têm que estar em conexão com os ciclos da natureza. É de fundamental importância que os sacerdotes busquem e adquiram esse conhecimento, pois só assim os rituais alcançam todo seu potencial.

 

A grande polêmica que fazem com a religião dos orixás é o fato de em alguns de seus rituais animais serem sacrificados. Uma prática que existe desde quando o homem precisa alimentar-se. Sempre foram realizados por muitas religiões, mas que aos poucos foram deixando de existir em algumas. A pergunta é, então, por que o candomblé ainda faz o que, para muitos, é considerado uma barbaridade?

 

A resposta é simples: essa religião tem uma profunda relação com o planeta Terra, tanto que suas danças são feitas com os pés totalmente plantados no chão, diferente do balé, que parece demonstrar que os bailarinos, dançando nas pontas dos pés, desejam alcançar o céu. Essa ligação com a terra não poderia excluir a necessidade que o homem tem de se alimentar para sobreviver. Oferecemos aos deuses tudo aquilo que nos mantém vivos e alegres: alimentos, flores, perfumes, água limpa e fresca. Tranquilizo os leitores dizendo que no dia em que os homens deixarem de ter na mesa galinha, galo, carneiro, porco, boi… naturalmente esses animais deixarão de ser ofertados aos deuses. Se um dia o sacrifício humano existiu foi porque as tribos se alimentavam de seus semelhantes. Se a desculpa para crítica de sacrifício de animais se deve ao fato de eles serem seres vivos, gostaria de lembrar que laranja, alface, couve também são seres vivos.

 

Afinal, quando arrancamos uma raiz de inhame para que ela faça parte da nossa farta mesa de café da manhã, nem lembramos que sacrificamos um ser vivo. Neste caso é para nos servir de alimento, e quando arrancamos uma flor pelo simples prazer de curtir sua beleza? Gostaria, apenas, que as pessoas que criticam os nossos rituais refletissem sobre o que foi dito anteriormente, com o coração e a mente aber ta, e chegassem às suas próprias conclusões. Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para ajudar as pessoas a ampliarem o conhecimento de suas mentes, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, o que faz com que eles se tornem mais purificados.

 

Caso tudo o que falei ainda não tenha servido para que o sacrifício de animais no candomblé possa ser compreendido, quero lembrar que os animais de que o povo se alimenta no seu dia a dia são mortos em série, de maneira cruel, nos abatedouros. Os nossos animais são reverenciados desde que são escolhidos nas feiras livres, até o momento em que são oferecidos aos orixás, quando cobrimos seus olhos com folhas específicas de calma e cantamos a fim de diminuir o estresse que eles possam estar sentindo. Além disso, eles não são animais quaisquer, são escolhidos aqueles que o sacerdote consagrado para esta função percebe que já estão no momento de passar para outro estágio evolutivo. Não matamos o animal, damos a ele um novo nascimento, por isso cantamos: Bi ewe yeje para lala ie, Ògún pere pa = Demos-lhes um novo nascimento, você resistiu à prova, ultrapassou seguramente privações e sofrimentos, você não está morto, está vivo. Somente Ogun mata.

 

Maria Stella de Azevedo Santos, Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá.

3 comentários

    • Rodrigo em 11 de maio de 2015 às 13:16
    • Responder

    Boa tarde!

    Gostaria de saber, se o senhor conhece ou já ouviu falar no Oxossí Akeke, caso sim, gostaria que me contasse a respeito desta qualidade de orixá, já joguei com diversos pais e mães de santo e sai ele como dono do meu orí.

    1. Rodrigo, seja bem-vindo. Me chama a atenção vc informar que diversos pais e mães de santo viram exatamente essa qualidade de Oxossi. Não que eu saiba tudo e todos os nomes, mas esse nome não aparece em nenhum texto de pesquisadores da religião. Outra coisa que me chama a atenção é o porquê um olhador utiliza seu tempo para informar qualidades a alguém não iniciado, quando o certo é dedicar-se ao estudo do Orixá, no caso, Oxossi. Mas te respondendo, o nome mais próximo ao que você citou é Akueran. Sugiro que antes de buscar informações sobre qualidades, você se preocupe em entender o que é e quem é Oxossi. Espero ter ajudado. Axé, Tomeje.

    • manoel em 8 de janeiro de 2019 às 22:54
    • Responder

    Rodrigo,
    me desculpe a franqueza, mas se o oráculo respondeu várias vezes a sua indagação, com a mesma resposta. Você deveria considerar. E não colocar em dúvida, uma resposta contundente.

    A grande problemática das pessoas atualmente, é a dúvida. Atrelada a falta de confiança e fé.
    E lhe digo mais, quem realmente tem “santo”, o próprio orixá se comunica. Se revelando pouco a pouco.

    Outra coisa, muitas qualidades de orixás (e muitas outras coisas), não estão e nunca estiveram em livros. Mas devidamente preservadas dentro das casas de santo, por aqueles que cabem serem os depositários do saber ancestral.
    As pessoas pensam, que todos os segredos do candomblé, foram revelados nos livros. Imaginário que de certo, menospreza a inteligência e sagacidade do negro.

    Se tudo fosse realmente dito, o candomblé não teria chegado até nós. E muito menos, visitado constantemente por sacerdotes da própria África Negra, em busca de resgatar o que a muito já perderam.

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