Samba contra o preconceito

O GLOBO – 21/04/2022
Por Márcio de Jagun

Samba contra o preconceito

No desfile deste ano, seis das 12 escolas de samba do Grupo Especial abordarão enredos ligados diretamente à negritude e à religiosidade afro. Algumas delas, como a Grande Rio, que falará de Exu — “Fala, Majeté! Sete chaves de Exu” —, já sofreram ataques de intolerância religiosa nas redes sociais, uma nítida e inadmissível afronta às leis que estabelecem a liberdade de credo e culto.

As escolas de samba são espaços ao mesmo tempo sociais e religiosos, extensões dos terreiros, onde os negros construíram polos de resistência, fé e criatividade. Humanos, deuses e músicas se entrelaçam no pensar, no agir e no cantar. Os ritmos sacros da liturgia afro estão no DNA do samba. Tanto assim é que as células rítmicas foram absorvidas e eternizadas. Na Mocidade Independente de Padre Miguel, o agueré de Oxóssi era a identidade de sua bateria. O mesmo ritmo, em três rufadas, falava pela Portela; assim como o ilu de Oiá inspirava as caixas e taróis do Império Serrano.

Nascido na Bahia de Todos os Santos, no Rio de Janeiro o samba brota, cresce e se desenvolve. É aqui que pretos libertos encontraram na casa das grandes “mães”, “tias” e “avós” um refúgio sereno que acalentava a alma e distraía o corpo. Eram “tias” de todos. Não escolhiam seus “sobrinhos”. Abraçavam sem olhar, ensinavam a rezar, ajudavam a viver. No bairro do Estácio de Sá, as reuniões de “semba” (diversão e alegria, nos idiomas bantu) corporificam o samba. Mas não foi fácil. A diversão do negro virou crime. O negro foi proibido de sorrir. Não podia jogar capoeira; não podia fazer “macumba”; não podia mais sambar. Mas não teve jeito… O samba nasceu para ser sambado.

Na virada dos anos 1920 para 1930, o samba faz escola. Vizinha Faladeira, Mangueira, Unidos da Tijuca e as do Morro do Salgueiro, entre outras, são criadas como educandários de samba. O ritmo é popular, mas usa Cartola.

Nem todos se conformaram com a glória do canto negro. Tentaram branquear o samba. Tentaram “desmacumbizar” o samba. Mas, quanto mais mexiam, mais ele crescia, ocupava e consolidava seu espaço na cultura musical brasileira. Ismael, Baiano e outros da turma do Estácio tinham o bloco A União Faz a Força.

Inspirado na cultura e na religião, o desfile das escolas de samba traz para a Sapucaí enredos, fantasias e alegorias com inspiração na fé ancestral. Mas são desfiles, não rituais. O carnaval representa oportunidade pedagógica única para difundir essa cultura e minimizar preconceitos. Na Coordenadoria Executiva da Diversidade Religiosa, trabalhamos políticas públicas voltadas para a liberdade de credo, atuando em apoio à Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância para combater o preconceito. Independentemente da crença e do credo, não podemos negar essa parte de nossa história. O Rio é uma cidade de múltiplas expressões culturais e religiosas. A diversidade é uma de nossas maiores belezas: a beleza de nossa gente. Salve o Rio! Salve nossa diver-cidade!

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