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mar 23 2012

ZOMADONU:

 

ZOMADONU: 

Na cidade daomeana de Abomé, são cultuados os chamados Tohosu, conhecidos como “reis das águas”. Essas divindades são adoradas pela família imperial da região. 

Zomadonu era um príncipe anormal, nascido filho do rei Akaba (que reinou no Daomé entre os anos de 1680 e 1708) e da rainha Kuande. 

Sempre que um Tohosu vem à Terra, encarna no corpo de uma criança portadora de graves anomalias físicas, consideradas mesmo como monstruosidades. 

A presença de um Tohosu entre os humanos era compreendida como descontentamento dos deuses, uma espécie de aviso para que a ordem se restabelecesse.

 Segundo Verger, era costume, à época, que as crianças nascidas com este tipo de anomalias fossem jogadas no rio, sendo devolvidas ao reino dos Tohosu, onde depois eram imolados animais para apaziguar sua ira. 

Segundo a lenda, a rainha Kuande, quando estava grávida de Zomadonu, teve uma gravidez muito penosa e agitada. Conta-se que algumas vezes a barriga, já grande, deslocava-se para as costas, para o peito e às vezes desaparecia só se mostrando novamente dois ou três dias depois. 

Apavorada com isso, a parteira real que acompanhava a gestação da rainha, fugiu abandonando o reino. 

Quando Zomadonu nasceu, tinha seis olhos (sendo 2 na testa, dois atrás da cabeça e dois no peito); já tinha dentes, barba e cabelo, sendo capaz de andar e de falar imediatamente após o parto. Zomadonu teria nascido ainda com um quisto cebáceo nas nádegas tão grande, que se arrastava no chão enquanto ele andava. 

Em um dia, o quisto cresceu tanto que Zomadonu entrara dentro dele e saíra rolando. No outro, Zomadonu transformara-se em uma ave enorme que pescava peixes no riacho e cantava. Noutra ocasião, voltava a ter a forma humana, mas sumira do reino sem deixar rastros. 

Alguns pescadores diziam ouvir a grande ave beirando o rio cantar e dizer que era Zomadonu, filho de Akaba. Seu pai, ordenou que procurassem Zomadonu por todas as partes, mas ninguém encontrava o príncipe defeituoso. 

Cada rei do Daomé cultuava ao menos um Tohosu e para cada qual foram erigidos Templos. Contam-se hoje cerca de 26 Tohosu, sendo Zomadonu o mais velho deles.

No Daomé, somente após o culto aos Tohosu, é que são realizadas as cerimônias aos demais voduns, como Lisá, Mawu, Hevioso, Sapata, etc. Isto, porque a dinastia dos reis de Abomé fazia questão de realçar a soberania dos seus ancestrais divinizados, sobre os demais cultos que foram introduzidos em seu reino. 

No bairro de Lego, em Abomé, existe um Templo específico para adoração de Zomadonu. Mas em outros locais de culto da cidade, pode ser vistas pinturas de uma grande ave conhecida como Gonofo, considerada uma das metamorfoses de Zomadonu. 

No Brasil o culto a Zomadonu ficou restrito à Casa das Minas, em São Luis do Maranhão, de tradição Jêje-Mina. Lá, o vodun Zomadonu é reverenciado no primeiro dia do ano, ao pé de uma grande cajazeira. Nesta arvora sagrada, não se sobe, não se cortam os galhos, não se tiram as cascas e não se comem os frutos, à exceção daqueles que caem no chão. 

Naquele Terreiro, Zomadonu é considerado protetor das primeiras donés, as matriarcas da dinastia Jêje-Mina em nosso país. 

Márcio de Jagun

Babalorixá, escritor, professor universitário, advogado e apresentador do Programa Ori (ori@ori.net.br)

 

 

 

 

 

Sobre o autor

tomeje

Axé à todos. Sou o Tomeje. Iniciado em 27 de outubro de 1987 para o Orixa Ogun. Desde que conheci a religião dos Orixás eu sempre me preocupei em apreender qual a função da religião e da religiosidade na vida das pessoas. Eu quero entender como isso funciona. Como a religião e a religiosidade formam a fé de alguém. São muito anos de perguntas, muitos questionamentos pessoais e poucas respostas e creio que seguirei assim, aprendendo sempre.
Agora, graças a essa nova tecnologia, tenho uma oportunidade de interagir e trocar experiencias e vivencias dentro da religião e assim aprender uns com os outros. Eu mais que vcs, com certeza, aprendo a cada pergunta.
Eu tento compreender a nossa religião pensando sempre numa comunidade que se ajuda mutuamente. E não é diferente neste meio de comunicação, que assim como os livros, discos, cadernos, fitas, dvd's e outras ferramentas de divulgação de conhecimentos, este blog é somente mais uma forma de comunicação.
Porém este nova possibilidade não deve ser pressuposto para descuidarmos do aprendizado com nossos mais velhos nas roças, no seu dia a dia. Ainda que por vezes seja difícil, eu aprendi que é na roça que se vive a realidade da religião.
Meu trabalho aqui é muito mais do que só falar e responder questionamentos a cerca da religiosidade. Meu objetivo é promover a discussão de assuntos que nos afetam direta ou inderetamente, é lembra-los que somos parte do TODO, que somos uma só comunidade e que o indivíduo, apesar de dos seus anseios pessoais, está inserido numa família de axé e, neste contexto, quanto mais se pensa coletivamente, mais o individuo se fortalece.
Candomblé só se faz no coletivo.
Sejam todos muito bem vindo a este projeto e que nossos queridos Orixas nos encaminhem sempre no melhor destino. Axé, Tomeje.

4 comentários

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  1. lofadecy otakotá

    kolofé babá!
    sou iniciado no culto e minha raiz cultua zomadu como patrono do asé, se possível gostaria de maiores informações sobre este vodun, ao qq me parece ser muito complexo.
    deixo meu e-mail (msn), caso de disponha a me ajudar.
    grato.

    1. tomeje

      Iofadecy Otakotá, seja bem vindo. As vezes eu me acho repetitivo nas respostas, mas também creio que seja importante orientar a quem nos procura sobre aspectos que, talvez, sejam mais importantes que a resposta em si.

      A respeito deste Vodum, te confesso que a única informação que disponho é esta que o Babalorixa Marcio de Jagun disponiblizou, mas com certeza ele vai responder também ao seu questionamento.

      Mas, de minha parte, posso te indicar que procure os blogs: Arrundegy.spaceblog.com.br ou candomble religião do Brasil (doté Jorge) ou por CEV (centro de estudos vodun) do nosso amigo Hunó Zodaavi http://zodaavi.blogspot.com.br/. Além disso tem um documentário que eu indico: A descoberta da amazonia pelos turcos encantados. São assuntos não relacionados diretamente com a sua pergunta mas que podem te ajudar muito mais na compreensão do Jeje no Brasil. Axé, Tomeje.

  2. manoel

    Lofadecy Otakotá,

    apesar do Vodun Zomadonu estar intimamente vinculado a Casa das Minas, seu culto ao que tudo indica, também sobreviveu em outras tradições Jeje da Bahia. Onde Azaunodor, possivelmente seria a mesma Divindade.

    Tal qual na Casa Grande das Minas (Querebentã de Zomadonu), Azaunodor (Zòònodò, Azòònodò), está relacionado a fundação do Bogun (Zoogodô Bogum Malê Rundó), sendo celebrado ai em seis de janeiro, dia dos Santos Reis, na igreja católica.

    1. tomeje

      Manoel, seja bem vindo ao blog, sua benção. Você deseja que o seu comentário seja incluído no texto publicado sobre o Vodun? Grande axé e felicidades, Babá Tomeje.

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